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4 de agosto de 2010

Não sei se isso acontece com vocês, mas vez ou outra eu paro e me pergunto qual seria o meu escritor preferido. É uma cosia que nunca consigo responder. Os livros que leio são bons, alguns até mesmo geniais, mas nunca são daqueles que me marcam ou significam grande coisa para minha formação. Leio diversos autores, mas preferidos, somente um ou dois, daqueles que você precisa ler avidamente até o fim, segurando os livros como pedras preciosas para só largar depois que as últimas páginas terminam.

Com meu primeiro livro de John Steinbeck, posso dizer que acabo de adquirir mais um escritor preferido.

A situação em que comprei minha edição de “Leste do Éden” (ou, como consta na minha capa, “Vidas Amargas”, por conta do filme originado a partir do romance) foi bastante estranha. Estava eu no sebo, revirando livros e mais livros como sempre faço e gosto de fazer, a procura de alguma coisa interessante, mas sem achar nada que valesse a pena. Então pensei: ‘quer saber? Vou escolher o maior livro que tiver nessa estante, pelo preço mais barato’. Puxei o livro – um calhamaço de 600 e poucas páginas – e li o primeiro parágrafo. Um saco, logo pensei. No começo, John Steinbeck se preocupa em descrever minuciosamente toda a região das Salinas, onde o romance tomará lugar. Não desisti: avancei na leitura e, quando percebi, já estava acompanhando as desventuras das famílias Trask e Hamilton pelas paisagens áridas e empobrecidas da região.

John Steinbeck não nega suas raízes. O livro – considerado pelo próprio autor como seu melhor trabalho – possui um toque autobiográfico bastante evidente. Nascido e criado na região que descreve tão bem logo aos primeiros parágrafos, o autor consegue transpor para o papel tudo aquilo que, acredito, ele observava, sentia, cheirava. O narrador é um tipo de personagem onisciente, descendente da família dos Hamiltons, e me pergunto se o próprio Steinbeck não estaria contando um pouco de sua própria história.

O livro começa mostrando a chegada e a instalação de duas famílias bastante diferentes na região das Salinas, nos Estados Unidos. A primeira tem como patriarca Sam Hamilton, um homem bom, obcecado por invenções e patentes. Sam passa o dia inteiro inventando mecanismos para ajudar os homens da região, criando poços, dando de comer aos animais e procurando sempre atender a todos os habitantes da região da melhor forma possível, esquecendo-se de sua própria família e de si mesmo.

A segunda família tem como protagonistas os irmãos Adam e Charlie Trask. Em uma alusão clara a Caim e Abel – que se repetirá, mais a frente, com os filhos de Adam Trask – os irmãos disputam o amor e a atenção do pai, um veterano de guerra linha dura que acredita mais no poder de sua bengala do que no poder das palavras.

Há, ainda, uma terceira personagem fundamental para o desenvolvimento da história: Cathy Ames. Cathy (ou Kate, mais para frente) talvez seja uma das melhores personagens construídas ao longo de todo o romance. Ouso dizer que foi uma das vilãs que mais aprendi a admirar na literatura que já li. Fria, cruel e paciente, Kate é o tipo de vilã que deixaria Darth Vader parecer uma menininha indefesa de dez anos de idade. Dificilmente alguém conseguirá se manter impassível frente às atitudes da personagem – que, apesar das vilanias e da postura falsamente santa, possui uma das mentes mais cruéis e absurdamente loucas do mundo.

Um dos pontos mais interessantes do livro é a sua forma de construção. Ele não possui muitas descrições – excetuando-se, é claro, as longas e cansativas descrições de paisagens que vez ou outra pipocam no texto –, sobretudo acerca dos sentimentos dos personagens. E isso é fascinante. O narrador não precisa dizer alguma coisa do tipo ‘ele olhou para ela com um olhar raivoso’, pois os próprios diálogos conseguem passar essa mensagem. Diálogos sobre diálogos, o leitor consegue perceber a intenção do autor em colocar ali, naquelas poucas – e aparentemente vazias – frases, toda a carga emocional que caracterizará as cenas e os seus participantes.

Não há como definir uma sinopse para um tipo de livro como esse. É uma história majestosa e grandiosa, que cobre cerca de cinquenta anos (ou mais, estou chutando um período estimado) da história de duas famílias e a forma como elas se entrelaçam. Seus dramas, frustrações, desejos, anseios e alegrias. Uma aula para quem deseja escrever alguma coisa; horas e mais horas certas de distração, reflexão e literal viagem para o mundo de Steinbeck para aqueles que apenas desejam ler o livro no ônibus ou antes de dormir.

Uma coisa é certa: eu simplesmente me fascinei com a narrativa de Steinbeck.

Posted on quarta-feira, agosto 04, 2010 by Lucas Rocha

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27 de junho de 2010

“Qual foi a pior coisa que você já fez?

Não vou contar, mas lhe direi qual foi a pior coisa que já me aconteceu... a mais terrível...”

Com esse pequeno texto, Peter Straub inicia um de seus mais famosos livros, considerado por muitos como um dos melhores do gênero. "Os Mortos-Vivos" (lançado nos EUA em 1979 com o título Ghost Story) conta a história de um grupo de quatro idosos que, periodicamente, se reúne para beber e contar histórias de terror, vestidos em ternos de gala e sentados em confortáveis poltronas de uma biblioteca particular. Quando uma série de acontecimentos estranhos começa a percorrer a cidade de Milburn – com direito a animais degolados sem que haja sangue no chão e suicídios sem explicações racionais –, o grupo pede a ajuda do escritor Don Wanderley, filho de um dos integrantes da Sociedade Chowder.

O livro é eletrizante, e seu prólogo já deixa isso bem claro. O início mistura tudo o que o leitor mais exigente procura: é misterioso e instigante na medida certa, te deixando extremamente intrigado e curioso para saber o que acontecerá em seguida.

É difícil comentar sobre "Os Mortos-Vivos" (título nacional bastante pobre e incoerente com a história em si, vale ressaltar) sem soltar nenhum tipo de spoiler, portanto, deixarei a sinopse um pouco de lado para dar mais espaço às impressões que tive nos outros quesitos de leitura.

Em primeiro lugar, a escrita de Peter Straub flui extremamente bem, mas não é perfeita. Não que o livro seja mal-escrito, longe disso: acho apenas que ele não é daquele tipo de prende a atenção de leitores ocasionais e sonolentos. Precisei, durante muitas vezes, voltar em algumas partes para saber o que estava lendo, mas credito essa falha muito mais a mim do que ao texto por si só.

Acho que há, também, uma sucessão de descrições que poderiam ser sumariamente cortadas do livro, para torná-lo mais dinâmico, principalmente nas partes em que a ação predomina. Há cenas que são simplesmente perfeitas – como ver um fantasma pegando a cabeça de um personagem X e obrigando-o a assistir enquanto outro fantasma mata o personagem Y –, com uma carga de tensão e horror excelentes. Mas há outras em que você simplesmente quer acabar logo de uma vez por todas e se pergunta o que diabos aquelas descrições estão fazendo ali.

Quanto a outros quesitos, não tenho o que reclamar. Ainda consigo ver todos os personagens principais do livro – e alguns secundários que são absurdamente bem construídos –, mesmo depois de tê-lo terminado há quase uma semana. A construção vai evoluindo aos poucos e, na última parte - quando todo o mistério do livro é enfim revelado - já sabemos sobre todos os personagens e temos os nossos preferidos.

O livro não é cronológico. Seu texto é complexo, misturando memórias dos personagens em primeira pessoa – tendo como fonte principal os diários de Don Wanderley – com ações acontecidas no presente em terceira pessoa e as próprias histórias que a Sociedade Chowder conta. Isso, no entanto, não causa confusão: o texto é ligado de uma forma extremamente consciente e orgânica pelo escritor, que pareceu não ter esforço algum para criar um grupo tão coeso. Você realmente se sente em Milburn, enfrentando as nevascas que fecham as estradas e lidando com criaturas soturnas que te perseguem noite afora.

No fim, o que fica na memória é um livro assustadoramente agradável. Arrisque-se a lê-lo de madrugada, no silêncio sepulcral e só com uma lanterna em mãos. Eu te desafio.

Nota: O livro parou de ser editado no Brasil. Portanto, se você não tiver a mesma sorte que eu e encontrá-lo a preço de banana em um sebo, corra até uma biblioteca e tente achá-lo. Se nem assim você conseguir, tecle a alternativa B: procure pelo filme “Histórias de Fantasma”, lançado em 1981 e adaptado do livro de Peter Staub. O filme tem muitas diferenças do livro (muitas mesmo), mas pelo menos te dá um gostinho da história que, garanto, é imperdível.

Posted on domingo, junho 27, 2010 by Lucas Rocha

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30 de junho de 2009

O retrato social e natural dos mineiros franceses em um marco na literatura naturalista. É assim que posso começar a definir o genial "Germinal", de Émile Zola. O livro, lançado em 1885, mostra a vida e a miséria em meio a uma mina de extração de carvão. Lá, Etienne, recém-chegado, busca abrigo e emprego, e, com suas ideias revolucionárias e socialistas, tenta mobilizar os mineiros em busca de maior igualdade.

Mas Etienne não é o personagem principal do livro. Nem Chaval, Catherine ou Maheu. O personagem principal é a própria mina e as situações que a permeiam.

O livro é naturalista em sua essência. Conseguimos perceber, através da leitura, todos os pontos principais do movimento. A situação de pobreza e miséria parece não ter início e nem um fim: é uma situação constante e atemporal. No mesmo sentido, os personagens parecem conformados com sua situação de trabalho excessivo, fome e falta de espaço, como se isso fosse inevitável e inerente à sua natureza. Ali ninguém pensa em enriquecer ou em tentar um emprego melhor. Até porque a fome urgente e as obrigações no trabalho conseguem interromper qualquer linha de pensamento.

Mas deixarei de lado as definições naturalistas presentes no livro e passarei a narrativa propriamente dita. A escrita de Émile Zola é envolvente, e, mesmo que algumas vezes possa se tornar excessivamente descritiva, consegue transmitir com clareza suas propostas. Com as palavras, conseguimos sentir o sufoco das minas e das casas de um cômodo com catorze moradores; sentimos arrepio ao ver que eles não terão o que comer no dia seguinte, ou quando vemos que a mesma borra de café está sendo usada durante toda uma semana. Vemos, a todo momento, os traços de selvageria presentes na narrativa. Ali, o homem é como um animal (teoria Darwinista) e, como tal, suas ações eram produto de seus instintos.

"Estava feito; ele tinha matado. Confusamente voltavam-lhe à memória todas as suas lutas, esse combate inútil contra o veneno que dormia nos seus músculos, o álcool lentamente acumulado da família. E no entanto só estava ébrio de fome, mas o longínquo alcoolismo dos pais bastara para matar. Seus cabelos eriçavam-se com o horror daquele assassinato, e, apesar da revolta da sua educação, uma alegria fazia pulsar seu coração, a alegria animal de um apetite enfim satisfeito. Em seguida sentiu orgulho, o orgulho do mais forte. Surgiu-lhe uma visão, a do soldadinho apunhalado, morto por uma criança. Ele também havia matado."

- Germinal, trecho

Outta coisa que incomoda - no bom sentido da palavra - é o contraste social. Enquanto nas minas (onde a maioria do livro é ambientado) a situação é precária e urgente, na casa dos burgueses tudo anda as mil maravilhas. As mulheres usam vestes trabalhadas e caras, comem e desperdiçam, parecem bonecas de porcelana. As filhas do dono da mina, com 19 e 21 anos, parecem crianças na forma de falar e se comportar, enquanto que nas minas, as meninas, com 13 e 14 anos, já se submetem a trabalhos pesados e ao sexo desenfreado nas festas dos mineiros.

Germinal é um marco não só na literatura naturalista, mas sim na literatura mundial de um modo geral. Um genial retrato de um mundo permeado pelas desigualdades sociais e pelo conformismo.

Posted on terça-feira, junho 30, 2009 by Lucas Rocha

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