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9 de maio de 2011

De tanto ler histórias de fantasia, tem horas que a gente sabe quando um livro não deve ser lá essas coisas. Seja porque não teve uma boa divulgação, seja porque ninguém ouviu falar muito dele ou seja pelo simples fato de ser um exemplar polpudo de uma editora de respeito e estar em promoção em um sebo, como se fosse uma última tentativa desesperada de gerar lucro para que o livro não fosse completamente incinerado por conta de desinteresse.

Foi assim que encontrei o livro “O Grito da Terra do Gelo” (editora Rocco, 502 p.), primeiro de uma trilogia do escritor inglês Stuart Hill: embalado no plástico, empoeirado pelo tempo e numa promoção de “três por dez” no sebo. A história me pareceu rasa e o texto da contracapa me fez pensar que haveria milhares e milhares de clichês no romance, mas como o que eu precisava mesmo era de um livro para me desligar do mundo por algumas horas, comprei-o assim mesmo.

O livro conta a história de Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília – e você provavelmente estará ofegante depois de pronunciar tantos nomes –, uma menina de treze/catorze anos que se vê subitamente mergulhada em uma guerra contra o cruel general Scipio Bellorum, comandante do império de Polipontus que deseja anexar o maior número possível de províncias reais ao seu império. Numa espécie de mistura esquizofrênica entre Alexandre, o Grande e Napoleão, o comandante passa sua vida movendo exércitos e expandindo seu território por nenhum outro motivo além de ter mais terras.

Com a ajuda de lobisomens, vampiros, bruxos e até mesmo leopardos falantes, Thirrin blábláblá irá enfrentar a ameaça de Scipio com sua personalidade forte e sua paixão pela terra que herdou de seu pai, o rei Redrought.

Ok, tenho que admitir que só comprei esse livro porque estava barato. Esse tipo de sinopse não me seduziria se eu estivesse na livraria e fosse desembolsar os 70 reais que ele deveria valer à época de seu lançamento. É uma história que tem tudo para ser rasa, com personagens que não fogem ao lugar-comum e reviravoltas que são mais do que previsíveis. E é exatamente assim que o livro transcorre.

A personagem de Thirrin é mal construída. No começo, quando tudo está bem e ela não passa de uma menina de treze/catorze anos, tudo é até convincente: é uma garota entre a fase infantil e adolescente, tentando descobrir o que acontece ao seu redor. Mas, ao passo que a guerra entra no contexto, tudo se torna muito forçado: de um momento para outro, Thirrin é a forte comandante do exército do reino, que consegue persuadir homens e criaturas fantásticas a se aliarem a ela em prol da luta contra um tirano imperialista. Não há essa transição de menina frágil / guerreira forte; ela simplesmente aceita o que lhe é oferecido sem medo, sem receios e sem questionamentos. E, obviamente, com muita personalidade e disposição para comandar sei lá quantos mil homens.

Algumas passagens do livro são ruins, outras chegam a beirar o nível da ridicularidade. Por exemplo, em um determinado momento, Thirrin segue com seu séquito até o castelo dos vampiros, em busca de uma aliança para aumentar o seu contingente contra Scipio Bellorum. É sabido que vampiros são criaturas ariscas e ardilosas, que tentam enganar qualquer um e tirar vantagem sem pensar duas vezes. Então Thirrin, sabendo desses fatos, e no auge dos seus treze anos – depois de páginas e mais páginas onde uma tensão realmente é criada para saber qual será a reação dos vampiros – chuta a porta do salão e fala ‘quem manda nessa porra agora sou eu’ (claro que não com essas palavras :P). E os vampiros aceitam. E assinam um acordo de aliança. E não se manifestam contra ela.

A única coisa que gostei – para não me chamarem de velho ranzinza que odiou completamente o livro – foi a relação de Thirrin com o bruxo Oskan. Ele é um tipo de ermitão que passou a viver em uma caverna depois que a mãe morreu, e só saiu de lá depois que um soldado é ferido em batalha e é tratado pelas habilidades herbolárias dele. Oskan tem a mesma idade de Thirrin, e funciona como um tipo de contraponto sábio para as decisões impulsivas da menina. Gostei dessa troca de inversões, dele ser o cérebro enquanto ela é os músculos, e não o contrário e habitual.

(Mas é claro que o autor estraga tudo com um deus ex machina completamente sem noção no fim do livro, em um ponto decisivo para Oskan. É óbvio).

A impressão final do livro é que ele é cansativo e mal-construído. Stuart Hill não conseguiu me cativar com esse romance nem com sua personagem, que em muitos momentos soa tão artificial quanto um personagem pobre em uma novela do Manoel Carlos. O livro é desnecessariamente longo e, pelo que soube assim que terminei de ler, é o primeiro volume de uma trilogia. Que eu, para todos os efeitos, não irei continuar a ler.

Posted on segunda-feira, maio 09, 2011 by Lucas Rocha

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20 de março de 2011

‘A Song of Ice and Fire’ é uma saga medieval. E de fantasia.

Fantasia medieval, eu poderia dizer.

Alta fantasia.

Ok, estou ligando os pontos: Tolkien, certo?

Errado.

A grande jogada de ‘A Song of Ice and Fire’ – que o diferencia de um romance de fantasia usual, com criaturas mágicas que se espalham pelo cenário como peças mal resolvidas de uma partida de RPG – é ser uma fantasia descompromissada com a fantasia. Deixe-me explicar: aqui, não há lugar para artefatos mágicos que resolvem os problemas dos personagens nem jornadas que percorrem milhas de distância a fim de alcançar algum objetivo que vai acabar com todo o mal que espreita o mundo. O que conta no mundo proposto por George R. R. Martin são os personagens: suas relações, seus pontos de vista, seus ímpetos e seus desejos estão sempre sobrepujados por qualquer outro idealismo. A fantasia serve apenas como pano de fundo para as relações humanas, principalmente no primeiro volume, ‘A Game of Thrones’, que mais parece um romance histórico ambientado em um universo paralelo, salvo algumas pequenas partes fantásticas (em todos os sentidos).

Já que falei do primeiro volume, vamos a ele: a história começa de forma eletrizante, com um prólogo com clima de terror que deixa qualquer leitor com duas pulgas atrás da orelha. Logo no início, somos apresentados a cenários gélidos e a descrições pormenorizadas. George R. R. Martin, roteirista de séries como ‘Além da Imaginação’ e ‘A Bela e a Fera’, sabe utilizar muito bem seus conhecimentos de narrativa para guiar o leitor por capítulos que, apesar de muitas vezes longos, te prendem em um vórtice de hipnose do qual você só se satisfaz quando o conclui e descobre – ou não – o que está acontecendo.

Depois que o prólogo acaba e enfim podemos respirar, somos apresentados à família Stark, residentes do castelo de Winterfell, um ponto localizado à beira da Estrada Real (Kingsroad), entre a Província Real (King’s Landing) e o Muro (The Wall). Lá, o soberano Eddard Stark comanda seu pequeno séquito ao lado de sua esposa Catelyn e seus seis filhos: Robb, Sansa, Arya, Brandom, Rickon e Jon – sendo o último um bastardo de mãe desconhecida. Pode parecer absurdo dizer isso – uma vez que, ao pensarmos em reinos e em castelos, temos uma visão antecipada de riqueza, imponência e ostentação –, mas é quase como se Eddard e sua família vivessem em um pequeno chalé de campo, longe das preocupações da cidade grande e tendo como únicas distrações os banquetes, os treinos com espadas e a reza aos deuses das florestas.

O plot do livro é um tanto normal: um personagem em uma aparente zona de conforto é transportado para uma nova realidade e um novo universo, onde deve aprender a conviver com figuras hostis à sua personalidade e aos seus conceitos de vida. No primeiro livro, o personagem de Eddard Stark é responsável por essa repentina mudança. Ele é um homem que vive sua vida sobre a base da honra, aquele que se destaca no mundo sujo que George R. R. Martin desenha pelo simples fato de tentar ser justo até as últimas consequências. Seu único erro durante o passado – que resultou no filho bastardo Jon Snow – é um de seus maiores arrependimentos. Traição não é uma palavra que esteja no dicionário do lorde de Winterfell.

A mudança de vida de Eddard vem com a morte do braço direito do rei, Jon Arryn. Robert Baratheon, o próprio rei dos Sete Reinos do Continente de Westeros, viaja até Winterfell com uma proposta que parece ser irrecusável para Eddard Stark: o soberano deseja que seu velho amigo seja sua nova Mão, algo como um conselheiro pessoal. Não há nenhuma outra pessoa em quem Robert confie mais para o cargo e, apesar da distância que o tempo impôs aos dois e às consequências do passado – Robert Baratheon se casaria com a irmã de Eddard, mas esta morreu e obrigou o rei a desposar uma mulher de outra família –, Robert vê na imagem de Eddard tudo o que nós, leitores, vemos: o homem correto, pai de família digno de confiança, daqueles em quem qualquer um confiaria de olhos fechados.

A partir daí, somos apresentados a um macrocosmo distante de Winterfell: King’s Landing. Agora não há lugar para honra ou justiça tal como Eddard a conhece. Ao adentrarmos King’s Landing, logo percebemos que todos defendem seus próprios interesses e sobrepõem-se a qualquer código de honra. Enquanto Eddard investiga os motivos da morte de Jon Arryn, antiga Mão do Rei, e descobre que ele pode ter sido assassinado, o soberano da família Stark percebe, perplexo, que tudo aquilo em que acredita e que transmitiu aos seus filhos não passa de um discurso vazio praticado pela realeza dos Sete Reinos, e cada vez se afunda mais nos segredos e jogos sujos praticados por eles. Petyr Baelish – também conhecido como Littlefinger (alguma coisa como ‘mindinho’ em português) – solta uma das frases que pode resumir todo o jogo de interesses que acontece em King’s Landing. Ele diz para Eddard Stark, em certo ponto da narrativa: ‘desconfiar de mim foi a coisa mais sábia que o senhor poderia ter feito’. É esse o jogo: não confie em ninguém, não acredite que ninguém é bom e nem tente culpar vilões inexistentes.

Já longe da realeza, em uma narrativa paralela, somos apresentados a Daenerys e Viserys Targaryen, últimos descendentes dos antigos reis dos Sete Reinos, remanescentes de uma época em que dragões governavam Westeros e todos se curvavam ante seu poder. A jornada deles em busca do restabelecimento de seu poder – o trono dos Targaryen fora usurpado por Robert Baratheon, que institucionalizou a família Baratheon como nova governante – é, apesar de paralela, extremamente importante para a narrativa do livro.

Apesar do conceito espalhado por aí de que em A Song of Ice and Fire ‘vilões não existem e mocinhos só existem para defender o seu interesse’, é possível notar que George R. R. Martin se esforça, nesse primeiro volume, para pintar a família Stark como digna de honra e a família Lannister – da qual provém a rainha Cersei Lannister, o anão Tyrion Lannister e o chefe da Guarda Real Jaime Lannister – como vilões traiçoeiros e cheios de segundas intenções. É um erro dizer que o primeiro livro da série se pinta em escalas de cinza, que não há vilões e heróis definidos, pois há. Humanos, sim, mas ainda assim divididos entre os ‘bons moços que estão sempre atrasados em relação aos vilões’ e ‘os vilões ardilosos que sempre querem se aproveitar da inocência alheia’. Mas isso não torna a narrativa menos proveitosa.

Os personagens são, sem sombra de dúvida, o ponto alto de George R. R. Martin. O autor consegue transformar cada um dos protagonistas em personagens memoráveis ao leitor. Somos apresentados a uma gama imensa de personagens e cada um deles consegue convencer por seus pensamentos e por suas ações, desde os mais idealistas, bobos e inocentes – como Sansa Stark e o próprio Eddard Stark –, passando por personagens cruéis, daqueles que adoramos odiar – Cersei e Jaime Lannister, Petyr Baelish – e os ardilosos, inteligentes e sagazes, que te cativam pelo seu raciocínio rápido e ações algumas vezes calculadas, outras não – Tyrion Lannister, Arya Stark.

Ao abrir as páginas do livro ‘A Game of Thrones’ (A Guerra dos Tronos, pela LeYa editora), prepare-se para mergulhar em um mundo extremamente convincente, desde suas descrições físicas e religiosas até os pensamentos de seus personagens. Traições, sangue, sexo e assassinatos são apenas alguns dos aperitivos que esperam para ser lidos durante as mais de quinhentas páginas do primeiro volume. Então se recoste confortavelmente em seu sofá, abra o livro e aproveite ao máximo esse mundo incrível que George R. R. Martin decidiu descrever.

Posted on domingo, março 20, 2011 by Lucas Rocha

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