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17 de março de 2012

Ah, zumbis... essas criaturas putrefatas e gosmentas, que babam e gemem e esticam as mãos em busca de carne fresca que aprendemos a adorar. Ganharam espaço entre os monstros em alta no momento – muito do hype se deve à série ‘The Walking Dead’, é claro –, mas são criaturas que estão no imaginário popular há muito tempo, talvez até mesmo antes do “Noite dos Mortos-Vivos” do George Romero. Estão presentes no cinema, quadrinhos, seriados e literatura. E como é de literatura que esse blog majoritariamente trata, por que não falar um pouco deles com a roupagem cosmopolita e cinzenta de São Paulo?

Comprei “Terra Morta: Fuga” (Editora Draco, 248p. ou 1.679 kb), do escritor paulista Tiago Toy, no catálogo de e-books da Amazon, em uma ótima alternativa da editora de disponibilizar sua produção editorial na base virtual. É mais barato, rápido, leve e, sobretudo, prático. Pode não ter o fetiche do virar das páginas nem do cheiro do papel, mas no frigir dos ovos, também tem das suas sensações positivas ler em um kindle – olha eu, adorador de papel virando a casaca para o mercado editorial digital.
Mas enfim. Falemos do livro do Tiago e deixemos essas discussões fetichistas para outra oportunidade. Como já disse acima, o livro trata de zumbis. Conta a história de Tiago (suponho que seja um alterego do autor), um ex-praticante de parkour e trabalhador em todas as horas disponíveis do seu dia, que está inserido em uma cidadezinha do interior paulista completamente infestada de zumbis. O livro mostra como Tiago se vira para escapar dos perigos, sua relação com os personagens com os quais esbarra ao longo da narrativa e, como não poderia deixar de ser, os segredos que acaba por descobrir que possuem relação direta com a propagação do vírus zumbi.
Para tornar a resenha mais fácil, vou desmembrar o Tiago como se eu fosse um zumbi ávido por tripas. Acho que é mais divertido assim.
Miolos
Uma das partes que eu achei mais bem construídas no Tiago do livro é o seu senso de humanidade. Tudo nele parece muito bem dosado, desde a bondade até a – pouca, sim – crueldade e vontade de largar todos para trás e continuar seu trajeto sozinho. Por ser um personagem de início solitário, que se vira como pode escalando muros e pulando grades, o personagem parece, a princípio, se preocupar muito mais com o quão ferrado pode ficar se não arranjar água ou onde vai dormir sem que nenhum zumbi o ataque. Quando seu relacionamento com Daniela – outra personagem principal muito bem construída – começa a tornar-se uma parceria cada vez mais intensa, percebemos a evolução dele: de homem individualista que pensa em largar a garota para trás para homem que não vai deixar que ela se machuque, porque se importa com ele. Do ponto de vista psicológico, a evolução do personagem está de parabéns.
Olhos
Outro ponto-central e positivo no livro são as descrições, seja nos momentos de contemplação ou nos – muitos, diga-se de passagem – momentos de fuga. As cenas são carregadas de ação do início ao fim, com zumbis sempre no limite entre o pescoço dos protagonistas, fazendo com que eles tenham que se virar com um zilhão de artifícios – que incluem um arpão de pesca – para estourarem a cabeça dos mortos-vivos. E quando estouram, é sangue para tudo quanto é lado, como não poderia deixar de ser :)
Pernas
A opção de utilizar o parkour como peça-chave das fugas de Tiago é interessante. Além de divulgar um esporte – ainda – pouco conhecido no Brasil, serve para mostrar como ele é útil em uma infestação zumbi (que o mundo nerd parece ansiar desesperadamente, mas não se prepara com a prática de algum esporte :P). As notas explicativas sobre cada movimento que ele faz também funcionam muito bem.
Coração
Aqui tenho uma pequena ressalva: falta romance. Sim, pode parecer bobo ou coisa de menininha que curte romance de bancas de jornal, mas achei que a relação Tiago-Daniela – por ser solitária e ter muitos momentos que poderiam dar brechas para insinuações mais românticas – teria um futuro maior se levasse a paixão em consideração. Nem que fosse um impulso momentâneo de carência, um erro que os levasse a ficar juntos durante uma noite e não quererem comentar sobre isso no dia seguinte.
Outra alternativa – caso a relação dos dois não fosse realmente uma boa opção – fosse falar um pouco sobre o passado afetivo de cada um. Com relação a esse tema, o livro me pareceu ascético, não prático (risos). Tudo bem que o que crescesse entre os dois fosse apenas afeto ou amizade, mas eles não conversam em nenhum momento sobre seus relacionamentos passados, sua vida amorosa. Quem sabe seja uma boa opção para aprofundar mais os personagens no livro 2.
~ * ~
Personagem desmembrado e agonizante no meio-fio, voltemos à narrativa em si: achei-a bastante agradável até uns 80% do livro, mas tenho que admitir que me decepcionei um pouco com o final. Talvez porque o número de brechas e pontas soltas fosse muito grande, talvez pela falta de explicações de aspectos essenciais que poderiam ser explicados logo nesse primeiro volume com a adição de um pouco mais de páginas. Faltou, aqui, aquele lance do livro que se fecha em si mesmo ao mesmo tempo em que dá brecha para continuação. “Terra Morta: Fuga” dá muitas brechas para continuação, mas não é fechado. Talvez isso possa ser uma alternativa que instigue os leitores a comprar os próximos volumes (ok, não vou dizer que não fiquei curioso pelo volume dois), mas acho que se algumas explicações essenciais fossem dadas e não ficassem para o próximo livro, eu ficaria ainda mais satisfeito como leitor.
Então é isso: o livro entretém. Se essa for sua principal preocupação – sentar durante umas horas e ler um pouco sobre sangue, tripas, pulos e grunhidos – esse é o livro certo. Agora aguardemos o segundo volume que, pelo que sei, está em fase de produção. Boa leitura!

Posted on sábado, março 17, 2012 by Lucas Rocha

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31 de janeiro de 2012


ATENÇÃO, ATENÇÃO! ESSA RESENHA CONTÉM SPOILERS. MUITOS.



Sabe quando você começa a ler um livro, tem uma boa leitura das primeiras páginas e logo se emociona imaginando ter encontrado alguma coisa realmente excepcional? E, depois de algumas páginas, vai murchando ao ler cada vez mais clichês e lugares-comuns e descobre que a história não passa de uma generalidade fantasiada de enredo original? Pois é. Foi mais ou menos assim que me senti ao terminar de ler ‘Who Fears Death?’ (400 p.), da escritora Nnedi Okorafor. Enganado.

A história tem tudo para dar certo: tem uma ambientação originalíssima, personagens interessantes e discussões bem adultas e interessantes para um livro rotulado como Young Adult. A história gira em torna de Onyesonwu – nome que significa o “Quem tem medo da morte?” que dá título ao livro –, uma garota nômade e filha de um estupro exercido por um Naru, grupo que subjuga e escraviza os Okekes (etnia a qual a mãe de Onye pertence), sempre levando em conta os ensinamentos do Grande Livro – estilo Bíblia mesmo, encarada a ferro e fogo. A miscigenação faz de Onye uma Ewu, uma garota de pele morena e cabelos crespos que é olhada com desconfiança por todos pelo simples fato de ser miscigenada. Apesar do preconceito, Onyesonwu logo descobre que possui uma incrível habilidade: pode se transformar em qualquer animal que quiser, e se sente confortável quando se transforma em urubu.

Todo esse pano de fundo, na primeira parte, é incrivelmente verossímil: desde o momento em que Onye chora a perda de seu pai e o faz respirar novamente por alguns segundos (cena que abre o livro) até o momento em que ela descobre a verdade sobre sua origem (em uma das cenas mais emocionantes que já li nesses tempos), você acredita que está com um grande livro em mãos. A história se perde em discussões sobre guerra civil, preconceito, estupro e, mais para frente, circuncisão feminina. Onyesonwu sente na pele a dor de ser a filha de um estupro, de sofrer preconceito por ter a cor da pele diferente e faz de tudo para conseguir se encaixar nessa sociedade de aparências que, mesmo com tão pouco, ainda consegue diminuir o que é diferente.

Até esse momento, a história está naquela classificação de cinco estrelas: a amizade entre ela e outras garotas da vila é desenvolvida direitinho e a gente consegue se afeiçoar aos personagens secundários; o romance dela com Mwita, outro garoto que também é um Ewu, engata aos poucos; a relação mãe-filha vai se expandindo; os flashbacks são bem dosados... enfim, tudo, até mais ou menos a página cem, está às mil maravilhas.

Mas aí, de uma hora para outra, as coisas degringolam de um jeito irremediável: não sei o que pode ter motivado isso, se medo da autora de tentar fazer uma ficção diferente do normal, de não vender livros ou de perder público jovem. O fato é que Nnedi Okorafor não soube dosar muito sua mão na segunda parte do romance, e transformou-o em uma enxurrada de clichês dos quais todos já sabem como vai terminar.

Eis o que acontece: ao descobrir sobre suas habilidades, Onye conhece um mestre através de Mwita, e o garoto diz que ele pode treiná-la para que ela controle melhor seus poderes. Ela tenta, por inúmeras vezes, que ele o treine, mas ele diz que não, não treinará uma mulher. Até aí tudo bem, tudo legal.

As coisas ficam ruins mesmo quando entra na história uma profecia que fala que Onye é predestinada a salvar o mundo. Toda aquela jornada do herói escarrada e cuspida sem nem um polimento ou um disfarce maior começa a partir daí.

É, meus amigos: Onye descobre que não está no mundo à passeio e que possui a predestinação de vencer as forças do mal (muahuahua) que estão do outro lado do continente, estuprando mulheres indefesas da etnia subjugada pelo Grande Livro. Então lá vai ela – depois, é claro, de passar um quarto do livro treinando e falando sobre pontos da mente, alma, corpo, etc e tal – viajar com as amiguinhas e o namoradinho em camelos que atravessam o deserto. Durante a viagem, passam por cidades, conhecem pessoas, odeiam uns, outros morrem, uns desistem. Enfim, RPG básico.

Na segunda parte da narrativa, não há absolutamente nada que me atraiu para continuar lendo: só terminei de ler no modo automático mesmo. De uma hora para outra, os problemas com a circuncisão feminina são resolvidas literalmente à base da magia (o que achei um desrespeito-mor com a discussão séria que desenrolou a primeira parte) e toda a viagem da trupe fica naquela de “Mwita e Onye na barraca, fazendo amor, lalalala” enquanto outros três personagens secundários se enfiam em um triângulo amoroso chato que não contribui em nada para melhorar a narrativa.

Outra coisa que me incomodou MUITO mais para o fim do livro foi a relação de Onyesonwu com a morte: em determinado momento crítico, quando tudo o que Onye precisa fazer é matar alguém, ela se recusa a usar os poderes em prol de um discurso de ‘oh, não, eu não vou me rebaixar e te matar, você pode sofrer mais vivo e eu não sujo minhas mãos, etc e tal’; mas, cinquenta páginas antes, ela extermina UMA PORRA DE UMA CIDADE INTEIRA (inclui-se velhos, crianças e camelos) só porque uma das amigas dela foi torturada por uns caras de lá. Ela entra em uma fúria contra a cidade e dá uma de Deus em Sodoma e Gomorra. Ponto falho, pra dizer o mínimo.

O final também é guiado para um completo anti-climax. O vilãozão-mor (que, aparentemente, faz o que faz por nenhum motivo interessante) só aparece para Onye através de visões – tá, ele se teletransporta ao melhor estilo Goku uma vez bem rapidamente, mas não acho que isso conte – e, quando enfim se encontram pessoalmente, na batalha final, tudo se resolve com um diálogo. Lindo o amor entre heróis e vilões, não é? Desce mais um chopp, simpatia, enquanto eu convenço o filho da puta a parar de acabar com o mundo!

Enfim, se eu pudesse recomendar o livro a vocês, os livreiros não iriam gostar: primeiro, porque vocês não podem arrancar 100 páginas e levar pra casa, segundo porque eles não vão querer que vocês paguem um terço do preço. Então eu digo: arrisquem-se. O livro tem coisas boas, discussões interessantes e umas cenas bem bonitas. Mas não esperem muito do enredo, porque a história não é lá muito diferente do que qualquer coisa que você já viu por aí antes.

Posted on terça-feira, janeiro 31, 2012 by Lucas Rocha

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