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5 de janeiro de 2012


“O tempo é um brutamontes, não é?”

Talvez essa simples frase, dita por um dos personagens do livro “A Visit From the Goon Squad”, da autora norte-americana Jennifer Egan, consiga resumir toda a aura que gira em torno dos personagens das 352 páginas do romance. Vencedor do prêmio Pullitzer de 2011, o livro apresenta a vida de um grupo ao longo de quase cinquenta anos, sempre de forma não-linear e com pontos de vista diferentes. Entremeado por música, tristeza e reflexões sobre o tempo e a velocidade com que as coisas estão acontecendo ultimamente, o livro merece todos os louros que recebeu da crítica especializada.

Temos um panorama diverso de personagens: o primeiro capítulo nos apresenta Sasha, a assistente de um produtor musical que está tratando seu problema de cleptomania; no segundo capítulo, o personagem principal é Bennie Salazar, o dito produtor, que utiliza pó de ouro como alternativa para tratar suas dores de cabeça crônicas e lembra do passado, quando tinha uma banda e fazia música com amor e não com olhos de cobiça; no terceiro, voltamos ao tempo e vemos, pelo ponto de vista de Rhea, uma menina que era amiga dessa banda, como eles se relacionavam. E daí por diante. O romance vai e volta no tempo constantemente, e os personagens se confundem entre protagonistas e coadjuvantes.

Aqui cabe um pequeno parêntese para a definição do termo “romance”: o livro é dividido em capítulos que, se lidos de forma isolada, possuem um significado próprio, como se fossem contos. No entanto, quando lido de forma completa, o livro se justifica como um romance e as histórias que tiveram início em um capítulo concluem-se, quase sem querer, em capítulos posteriores. A primeira comparação que me veio à cabeça foi o romance nacional “Neon Azul” (já resenhado no blog), do escritor carioca Eric Novello, que também opta por essa estrutura narrativa. O livro também me lembrou do poema “Quadrilha”, do Carlos Drummond de Andrade:

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.”

Existem dois cernes ao longo do livro: a distância e a música. As idas e vindas dos personagens, a forma como encaram a tecnologia e a possibilidade que ela traz de reunir novamente antigos companheiros (uma pesquisa no Google ou no Facebook podem trazer de volta a pessoa amada em menos de cinco minutos) é encarada como positiva e, ao mesmo tempo, ameaçadora. Os personagens parecem estar sempre querendo se reencontrar, mas falta coragem para que alguém dê o primeiro passo. Em alguns casos, quando se encontram (como quando o produtor musical Bennie recebe a visita de um velho amigo de banda, que não logrou êxito na vida), os resultados podem ser desastrosos, pois ninguém realmente acredita que o reencontro se dêapenas por saudade, mas sim por interesse.

Já a música se apresenta não apenas nas memórias dos personagens – que falam de Semisonic, David Bowie, Iggy Pop (a música ‘The Passenger’ foi uma das influências da autora no momento de escrever o romance) e outros ícones antigos e atuais do rock –, mas na própria estrutura do livro. O romance é dividido em duas partes, “A” e “B”, tal como um antigo disco de vinil, e Egan parece usar desse recurso da mesma forma que os vinis utilizavam. No lado A (primeira parte) estão os contos que não abusam da desconstrução, mas mantém uma linearidade narrativa bastante comportada. São histórias boas – na verdade, talvez sejam melhores que as histórias da parte B –, mas extremamente comportadas, quase ‘comerciais’, para usar o jargão musical. Já o lado B apresenta o lado mais experimentalista de Egan, onde ela joga a estrutura às favas e brinca um pouco com cada história. É no lado B que encontramos uma matéria de jornal que acaba se desenrolando em um thriller e uma apresentação de power point que discorre e compara as melhores músicas que fazem pausa de 2 a 3 segundos durante sua execução.

Talvez a segunda parte também seja o palco para as piores histórias do romance: tem um homem que procura sua sobrinha em Nápoles, um general megalomaníaco de alguma república da América Central que precisa melhorar sua imagem ante o público e um conto cheio de mensagens de texto pós-modernas e meio indecifráveis para quem arranha no inglês e não está acostumado com gírias e abreviações. Para mim, essas são as histórias mais fracas do romance, que não me animaram e, em alguns casos (como na história do general) só me fizeram ler porque eu tinha a sensação de que aquele pequeno cosmos iria acabar em vinte páginas.

Com mais acertos do que erros, Egan merece o destaque como uma das grandes autoras de 2011. Seu romance vai sair esse mês no Brasil pela editora Intrínseca (com o título de “A visita cruel do tempo” – que ainda não decidi se gostei ou não) e os direitos já foram comprados pela HBO para a produção de um seriado. Ou seja, você ainda ouvirá falar bastante dessas pequenas histórias. E vai adorá-las, tenho certeza.

Posted on quinta-feira, janeiro 05, 2012 by Lucas Rocha

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24 de setembro de 2009

Não sou do tipo que vai a uma livraria com exatos dezesseis reais no bolso e compra um livro; também não sou do tipo que lê no ônibus no caminho de volta para casa; e tampouco sou do tipo que lê um livro inteiro em poucas horas.

Mas com o livro “Memória de Minhas Putas Tristes” quebrei todos esses meus paradigmas particulares. Estava na minha visita solitária ao shopping, na pós-sessão de cinema de “Up: Altas Aventuras”, e passei na livraria, munido de dezesseis reais livres – troco do ingresso, comes e bebes. Fiquei bastante tempo lá, lendo prefácios e orelhas de livros de bolso e de grandes editoras, resolvido a comprar alguma coisa com o dinheiro que tinha. Olhei, procurei, virei e revirei a livraria e peguei um dos exemplares de “Memória de Minhas Putas Tristes”. Dei de ombros e falei: ‘É você mesmo... é o mais barato daqui”.

Paguei, fui até a fila do ônibus e comecei a ler o livro logo ali, por total falta do que fazer – eram sete da noite e Niterói inteira parecia espremida naquele terminal rodoviário a caminho de São Gonçalo.

Logo que comecei a ler, ainda na fila do ônibus, fui invadido por sensações que dificilmente me invadem – ainda mais no caso de um livro tão pequeno e com letras garrafais como este, com uma gritaria dos infernos de “Bala! Pipoca! Salgadinho! Coca-cola é dois real!”.

Logo ao primeiro parágrafo, o personagem principal do livro fala de suas intenções. É possível perceber toda a melancolia de suas palavras. Com noventa anos, crítico musical e cronista de uma coluna semanal, o personagem principal é notadamente amargurado. Amargurado pela vida longa e aparentemente sem nenhum acontecimento importante; amargurado por uma solidão que se estende de seu nascimento até o dia de seu aniversário de noventa anos.

Tomado subitamente por um ímpeto, ele decide se dar de presente uma noite de amor com uma menina virgem e desconhecida. Para isso, liga para Rosa Cabarcas e deixa tudo acertado para o encontro com a menina. A partir daí, a trama se desenrola. Com maestria, como não poderia deixar de ser.

O lirismo de cada palavra de Márquez é indescritível. O texto, em primeira pessoa, carrega em si toda a solidão do personagem. Eu, particularmente, me pergunto se o próprio Gabo não se confunde com o personagem principal da história.

O livro trata, acima de tudo, sobre o amor. Sobre o amor tardio, sobre o amor não correspondido, sobre o amor platônico, sobre o amor paixão, sobre o amor e sobre o amar. São inúmeros adjetivos e substantivos que se confundem numa mescla de sentimentos e sensações que arrebatam o leitor de forma única.

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:

- É hoje.”

Memória de Minhas Putas Tristes, Gabriel García Márquez – Pág. 7

O romance desenhado pelas palavras de Márquez é um ultimato ao amor. Mesmo que tardio e de uma forma completamente inesperada, ele pode acontecer. Recomendadíssimo!

Posted on quinta-feira, setembro 24, 2009 by Lucas Rocha

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30 de junho de 2009

O retrato social e natural dos mineiros franceses em um marco na literatura naturalista. É assim que posso começar a definir o genial "Germinal", de Émile Zola. O livro, lançado em 1885, mostra a vida e a miséria em meio a uma mina de extração de carvão. Lá, Etienne, recém-chegado, busca abrigo e emprego, e, com suas ideias revolucionárias e socialistas, tenta mobilizar os mineiros em busca de maior igualdade.

Mas Etienne não é o personagem principal do livro. Nem Chaval, Catherine ou Maheu. O personagem principal é a própria mina e as situações que a permeiam.

O livro é naturalista em sua essência. Conseguimos perceber, através da leitura, todos os pontos principais do movimento. A situação de pobreza e miséria parece não ter início e nem um fim: é uma situação constante e atemporal. No mesmo sentido, os personagens parecem conformados com sua situação de trabalho excessivo, fome e falta de espaço, como se isso fosse inevitável e inerente à sua natureza. Ali ninguém pensa em enriquecer ou em tentar um emprego melhor. Até porque a fome urgente e as obrigações no trabalho conseguem interromper qualquer linha de pensamento.

Mas deixarei de lado as definições naturalistas presentes no livro e passarei a narrativa propriamente dita. A escrita de Émile Zola é envolvente, e, mesmo que algumas vezes possa se tornar excessivamente descritiva, consegue transmitir com clareza suas propostas. Com as palavras, conseguimos sentir o sufoco das minas e das casas de um cômodo com catorze moradores; sentimos arrepio ao ver que eles não terão o que comer no dia seguinte, ou quando vemos que a mesma borra de café está sendo usada durante toda uma semana. Vemos, a todo momento, os traços de selvageria presentes na narrativa. Ali, o homem é como um animal (teoria Darwinista) e, como tal, suas ações eram produto de seus instintos.

"Estava feito; ele tinha matado. Confusamente voltavam-lhe à memória todas as suas lutas, esse combate inútil contra o veneno que dormia nos seus músculos, o álcool lentamente acumulado da família. E no entanto só estava ébrio de fome, mas o longínquo alcoolismo dos pais bastara para matar. Seus cabelos eriçavam-se com o horror daquele assassinato, e, apesar da revolta da sua educação, uma alegria fazia pulsar seu coração, a alegria animal de um apetite enfim satisfeito. Em seguida sentiu orgulho, o orgulho do mais forte. Surgiu-lhe uma visão, a do soldadinho apunhalado, morto por uma criança. Ele também havia matado."

- Germinal, trecho

Outta coisa que incomoda - no bom sentido da palavra - é o contraste social. Enquanto nas minas (onde a maioria do livro é ambientado) a situação é precária e urgente, na casa dos burgueses tudo anda as mil maravilhas. As mulheres usam vestes trabalhadas e caras, comem e desperdiçam, parecem bonecas de porcelana. As filhas do dono da mina, com 19 e 21 anos, parecem crianças na forma de falar e se comportar, enquanto que nas minas, as meninas, com 13 e 14 anos, já se submetem a trabalhos pesados e ao sexo desenfreado nas festas dos mineiros.

Germinal é um marco não só na literatura naturalista, mas sim na literatura mundial de um modo geral. Um genial retrato de um mundo permeado pelas desigualdades sociais e pelo conformismo.

Posted on terça-feira, junho 30, 2009 by Lucas Rocha

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