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2 de outubro de 2013

Durante a Bienal 2013, passei muito tempo no estande da Gutenberg. E observei, com olhares atentos, uma pilha de livros verdes que parecia evaporar a cada vez que era reposto pelo pessoal que trabalhava ali. Era um livro que me chamou atenção pela capa estrategicamente neutra (no sentido de: não é um livro “de menina” nem “de menino”) e pela sinopse: ‘mutantes + distopia + aventura’. Hm, premissa interessante, pensei. Peguei um livro da pilha, paguei e levei para a autora, que estava ali no estande, autografando.

Foi aí que percebi que, mesmo que o livro fosse ruim (o que não é, de forma alguma), valeria a pena tê-lo comprado apenas por ter conhecido a autora. Impossível não começar a falar sobre esse livro sem falar da idealizadora por trás das páginas, a mega carismática Bárbara Morais. Ela, muito comunicativa e toda empolgada com o lançamento do livro, é uma pessoa incrivelmente gente boa. Estava lá cheia de sorrisos e disposição para assinar quantos livros fossem necessários e tirar quantas fotos fossem possíveis, sem diminuir o sorriso do rosto mesmo com a demanda incrivelmente alta. Depois, é claro, comecei meu processo de stalker e passei a segui-la no twitter, a ler o blog dela e adicioná-la no facebook. Isso só reafirmou a primeira impressão que tive: a Bárbara é sensacional.

Isso posto, vamos ao livro: “A Ilha dos Dissidentes” (ou AIDD, se você estiver com preguiça de escrever tudo) se passa em uma sociedade alternativa onde a humanidade se divide entre seres humanos ‘normais’ e ‘anômalos’. Os anômalos são seres que nascem com mutações genéticas que conferem a eles poderes especiais, como super-força ou habilidade de respirar embaixo d’água. No livro, acompanhamos a história de Sybil Varuna, uma menina que descobre não ser igual aos outros humanos. Sybil é a única sobrevivente do naufrágio de um navio que a levava de Kali – província empobrecida que está no meio de uma zona em guerra entre a União e o Império – para o continente Pacífico, que abriga refugiados escolhidos pelo governo para se verem livres das bombas e do terror.

Resgatada do naufrágio, Sybil percebe que sua vida mudará completamente: sendo uma anômala, ela não poderá voltar para Kali, mas será enviada para Pandora, uma província feita para concentrar anômalos – identificáveis a partir de suas roupas amarelas. Para a protagonista – uma garota órfã de uma região empobrecida e imersa em guerra – a possibilidade de mudança se mostra extremamente satisfatória: de uma hora para outra, ela é adotada por uma família que está feliz em tê-la entre os seus, experimenta pela primeira vez uma quantidade absurda de comidas gostosas; e, também pela primeira vez, consegue se relacionar com amigos da sua idade e firmar amizades verdadeiras.

A princípio, eu tinha torcido o nariz pra esse sentido clean da cidade de Pandora: tudo parece muito fácil para Sybil e meu hábito de leitura sabe que quando a esmola é demais o mendigo desconfia. Mas, aos poucos, fui entendendo que nada do que está ali é gratuito: a verdade é que Sybil sofreu muito na vida e, pela primeira vez, está em um lugar onde não precisa se preocupar com dividir a comida entre almoço e jantar.

A primeira metade do livro se foca mais nesse cotidiano de Sybil e nas relações dela com os amigos, além de possíveis e prováveis interesses amorosos: nesse momento, o enredo se preocupa menos em desenvolver uma história de ação e mais a desenvolver os relacionamentos entre os personagens, o que pode parecer um pouco lento para alguns, mas que para mim funcionou bem.

Sobre os personagens coadjuvantes: são todos muito bem construídos. Destaques para Leon, o anômalo cego que se vira muito melhor do que qualquer outro com visão; Andrei, que disputa com Sybil o posto de melhor-anômalo-da-água; e Ava, uma She-Hulk baixinha e super-forte. Os coadjuvantes são numerosos, mas cada um tem seu momento dentro da narrativa e são perfeitamente cabíveis; não sobra ninguém ali, mesmo que algumas funções sejam mais importantes do que outras.

Outro parêntese é o acerto da Bárbara Morais para a diversidade de etnias e de sexualidades dentro do livro. Temos gente de toda cor e de toda a sexualidade – até mesmo o heterossexual que se veste de mulher para apresentar um programa de televisão –, tudo colocado de uma forma muito natural e acertada, sem forçar barras de inclusão e/ou levantar bandeiras. Uma opção extremamente bem feita que enriqueceu muito a narrativa.

Já na segunda parte da história – depois de um ponto de virada que coloca nossos personagens em uma situação inesperada –, a ação toma conta da narrativa. E ela é frenética, com perseguições, tiroteios, correrias, bombas explodindo e pessoas quase morrendo a todo o momento. Se você estiver achando a primeira parte um pouco morosa e está com preguiça de continuar, meu conselho é: CONTINUE! Se você, assim como eu, é fã de ação, não vai se arrepender ao terminar de ler o livro. As viradas finais são extremamente bem construídas e o último capítulo fecha o primeiro volume da trilogia com uma série de perguntas que serão respondidas (assim espero) nos próximos dois volumes.

“A Ilha dos Dissidentes” é uma aventura daquelas que não dá pra parar de ler. Se você é fã de X-Men ou de quadrinhos de super-heróis em geral, vai se sentir extremamente confortável com a escrita da Bárbara; se não é fã, vai gostar igualmente do livro. Então tire suas roupas amarelas do armário e junte-se aos anômalos!

Posted on quarta-feira, outubro 02, 2013 by Lucas Rocha

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10 de setembro de 2013


Escrever uma opinião sobre o segundo livro de uma série é sempre muito difícil. Há aquela preocupação em não soltar spoilers, em não acabar falando mais do que devia e, ao mesmo tempo, tentar passar todas as sensações que a leitura me proporcionou. Escrevo esse texto em um momento eufórico, onde acabei de fechar o livro e corri imediatamente ao Word, tomando todo o cuidado necessário para não encher a caixa de e-mails do autor com pedidos e mais pedidos de TRANQUE-SE EM CASA, ESCREVA OS PRÓXIMOS LIVROS E SÓ VOLTE A VER O SOL QUANDO TERMINÁ-LOS!

Pois é. Foi exatamente assim que me senti quando terminei de ler “Prata, Terra e Lua Cheia” (Editora Gutenberg, 272 págs), do escritor paulista Felipe Castilho: com sede de quero mais. E isso já diz bastante sobre a história, que se constrói com um cuidado extremamente acertado no tom dos personagens e no desenvolvimento do enredo. É um daqueles raros livros que você só larga quando termina de ler e fica aflito quando acaba, esperando ansiosamente pela continuação.

Mas voltemos um pouco e vamos explicar sobre o que estou falando para aqueles que não tem a mínima ideia de quem é Felipe Castilho ou o que é a série que ele escreve. “Prata, Terra e Lua Cheia” é o segundo romance da série “O Legado Folclórico”, que teve como primeiro livro “Ouro, Fogo e Megabytes” – cuja resenha pode ser lida aqui. Os livros tem como protagonista um garoto nerd de 12 anos chamado Anderson Coelho, que mora no interior de uma cidade fictícia de Minas Gerais. Anderson é um garoto que prefere jogar RPG ao contato social, mas repentinamente se vê envolvido com uma Organização ambientalista e uma série de criaturas que, até então, nunca foi capaz de enxergar. No primeiro volume, Anderson enfrenta uma cuca, um grupo de capelobos e um boitatá gigante, entre outras feras presentes no folclore nacional.

Mas isso é o volume um e não estou aqui para falar dele. Então vamos ao que interessa.

No segundo livro, Anderson é novamente contatado pela Organização para embarcar em uma nova aventura: dessa vez, em uma ilha criada há muitos anos pela Iara e pelo Grande Caipora, com o objetivo de dar um fim às disputas territoriais entre o homem branco e os indígenas que viviam naquele pedaço de terra que outrora fizera parte do continente. A ilha, chamada Anistia, passou a ser palco de uma disputa que acontece periodicamente entre Organizações secretas e, por conta disso, Anderson é convocado a participar da próxima peleja. No entanto, mal sabe ele que os perigos que pode encontrar na ilha são muito mais mortais do que os que ele imagina.

No segundo volume d’O Legado, temos de volta uma série de personagens que deixaram saudades ao fim do volume um – entre elas, uma capivara que acha que é cachorro e uma arara falastrona. Esse sentimento de retorno é sempre muito bom, e me surpreendi ao perceber que, mesmo não tendo lido novamente o primeiro livro antes de começar o segundo, lembrei de praticamente todos os personagens que estavam presentes em “Ouro, Fogo e Megabytes”. Também somos apresentados a novos rostos, como o de uma metamorfa chiliquenta e um showman de programas de sobrevivência. O leque dos personagens é extremamente diversificado e, mesmo que algumas vezes eu tenha ficado um pouco perdido com a quantidade deles – principalmente no momento em que Anderson chega à ilha de Anistia –, aos poucos eles vão sendo desenvolvidos e digeridos pelo leitor, que passa a ter todos como companheiros.

Outra coisa que tenho que comentar é a ação praticamente incessante ao longo da história. O jogo que Anderson participa me remeteu imediatamente a Jogos Vorazes e Battle Royale. A comparação não nasce à toa: Anderson é incessantemente colocado à prova, tendo sempre sua vida posta em jogo para que possa continuar lutando por ela. Entre lobisomens e muiraquitãs, o protagonista passa por alguns apertos inacreditáveis e, quando acha que escapou de um problema, sempre aparece um maior para preocupá-lo mais (e o livro possui a melhor estratégia narrativa de um deus ex machina desde Scott Pilgrim). Os momentos de tensão estão dispersos ao longo de toda a narrativa, o que prende o leitor para sempre querer virar mais páginas e saber se o pescoço de Anderson sairá ou não ileso dali.

A utilização da mitologia continua ótima. Castilho possui o poder de manipular as lendas folclóricas – muitas vezes identificáveis a nós apenas pela obra de Monteiro Lobato – e devolvê-las ao leitor de uma forma completamente surpreendente e nova. Sem se preocupar com a sonorização de um nome indígena (que, para a maioria das pessoas, não é tão bonito quanto um nome europeu) ou com a utilização de criaturas oriundas da mitologia local, ele é muito feliz ao apresentar para o leitor seres que, à primeira vista, podem parecer pouco usuais ou sem graça, dando a elas uma roupagem por vezes soturna, por outras cômica, mas sempre levando em conta a adequação ao universo proposto por ele e a como determinada criatura pode se encaixar para dar mais movimento à narrativa.

Quanto às escorregadas de revisão, a editora parece ter tomado um cuidado dobrado para evitá-las ao máximo neste segundo volume. Vi apenas uma vírgula aqui e ali que eu suprimiria ou mudaria de lugar para dar mais fluidez ao texto, e não por estarem erradas; ponto para a preparação de texto da Gutenberg.

A capa continua seguindo o mesmo estilo (lindo) do primeiro volume, com o detalhe metálico no título que faz qualquer um que passe por uma livraria ficar com os olhos brilhando para ter o livro logo em mãos. Por dentro, o padrão de ilustrações por capítulo continua igual, com imagens que emulam xilogravuras belíssimas sobre a história.


Erros, defeitos, reclamação com a gerência? Sinceramente, nada muito relevante. Acho que a única coisa que me incomodou momentaneamente foi a quantidade excessiva de personagens no segundo terço do livro, mas isso logo foi sanado ao longo da história. Wagner Rios, o vilão, continua muito bem colocado e, neste livro, ganhou profundidade; Anderson também, com todas as suas escolhas éticas e as consequências que viu e ainda verá nos próximos volumes, foi um personagem construído com o intuito de cativar os leitores: por vezes chato, por outras extremamente inteligente, ele é o herói certo para o tipo de aventura que vive. Gostei particularmente da inserção da realidade dos sonhos/mortos, levando em conta todas as possibilidades que ela pode trazer para os próximos volumes.

Como destaque, posso citar as cenas dos lobisomens como as melhores do livro, tanto nas transformações quanto nas perseguições e na violência muito bem colocada para atingir um público mais novo e sedento por porradaria. O livro é excelente tanto para o público mais novo quanto para o mais velho. Anderson é um protagonista extremamente crível para um pré-adolescente esperto e cheio de fôlego para encarar aventuras.


O saldo final do livro é extremamente positivo. Ele consegue misturar ação, mitologia e diversão na medida certa para não ter em nenhum momento um tom chato ou pseudo-moralista. E CADÊ O VOLUME TRÊS?! (sem pressão, sem pressão...).

Posted on terça-feira, setembro 10, 2013 by Lucas Rocha

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16 de julho de 2013


Sonhar está entre as constantes da vida. Sem ideações filosóficas, sonhamos praticamente todos os dias, com paisagens surrealistas e monstros de três cabeças que precisamos enfrentar - e que nunca sabemos se vencemos ou não, uma vez que sempre acordamos antes do sonho ter seu desfecho cinematográfico. É partindo dessa premissa de sonhos que Natália Couto Azevedo constrói seu romance, "O Reino dos Sonhos: A Cidade de Cristal", primeiro de uma série ainda em andamento.

Conheci a Natália durante a FLIP 2013: tivemos a oportunidade de dividir a mesma casa e, por lá, fizemos um sarau durante uma das madrugadas. Natália leu o início de uma história na qual está trabalhando, e não pude deixar de ser fisgado pela narrativa dela: é comum desconfiarmos de livros de novos autores - "pouco tempo, muitos livros", blá blá blá -, mas a prosa dela me deixou convicto de que o livro seria no mínimo interessante. Ainda ao lado dela, acionei meu precário 3G e comprei a edição eletrônica na Amazon (uma pechincha e um ótimo negócio para mim, não sei se muito bom para ela, diga-se de passagem) e ainda preciso desenvolver uma tecnologia para que ela possa autografá-lo.

Foi então que, três dias após o fim da viagem, deitado no sofá da sala e tentando colocar as ideias no lugar para elaborar os primeiros passos do malfadado projeto de conclusão de curso, comecei a ler despretensiosamente. Pensei que fosse ler um ou dois capítulos e depois largar para lá, continuar com minhas leituras atuais e depois voltar ao livro em outra oportunidade. Só que, assim como a história que ela contou durante nosso sarau improvisado, me senti imediatamente fisgado pela narrativa de "O Reino dos Sonhos".

O plot da história é bem comum aos adeptos de romances young adults: a jovem Elorá, dezessete anos, estudante de primeiro ano de artes plásticas e desajustada social, está às voltas com sonhos bem estranhos, envolvendo um universo de florestas e seres com asas que contemplam a natureza; como forma de se expressar, pinta as imagens que vê em seus sonhos e tudo o que quer da vida é que sua orientadora a admire, que sua tia pare de reclamar e que o garoto por quem timidamente se apaixonou repare nela.

Natália Couto Azevedo foi muito feliz ao delinear sua protagonista: a voz dela é extremamente condizente com os dilemas de uma adolescente de primeiro ano de faculdade; senti, no entanto, alguns ecos excessivos de ensino fundamental e médio no relacionamento que ela tem com os amigos de corredor, adeptos ao bullying. Não sei se é algo que se encaixe apropriadamente na faculdade, onde tudo é dito de forma um tanto mais velada do que no colégio.

Mas, se por um lado ela peca com os personagens que não tem importância para o eixo narrativo, por outro ela acerta em cheio com os coadjuvantes: a escolha de poucos personagens para o número de páginas do livro coube na medida certa para que cada um fosse aprofundado devidamente. Gabriel e Leila, amigos de Elorá, são os que mais se destacam; mas também temos o irmão da protagonista, Felipe; a orientadora, Iris; a tia chata, Virgínia; e até sua gata de estimação, Lilás (ótimo nome para uma gata), todos muito bem articulados e com papéis muito bem definidos ao longo da história, que sempre está em constante movimento, apresentando novos conflitos, sejam eles de cunho pessoal ou que englobem a relação entre Elorá e o mundo dos sonhos.

Até mais ou menos metade da narrativa, estamos visualizando muito mais a Elorá humana do que a feérica: seus problemas afetivos e acadêmicos são o centro da narrativa. Na segunda metade, somos finalmente apresentados aos problemas que envolvem o mundo dos sonhos e os motivos que levam a protagonista a ter papel central naquela dimensão paralela. Para ser sincero, achei a segunda parte um tanto mais empolgante do que a primeira, mesmo que não descarte a importância dos dilemas pessoais de Elorá.

Um ponto que me deixou um pouco desconfortável foi a preparação de texto, principalmente o uso excessivo de vírgulas quando poderiam ser utilizados outros artifícios que dessem maior ritmo e fluidez ao texto, como ponto-e-vírgula ou mesmo pontos finais. Não vi erros gramaticais nem repetições de sentenças, não vi redundâncias ou problemas de acentuação. Natália escreve bem, com um vocabulário invejável a qualquer um que esteja publicando seu primeiro romance; acredito que, nesse caso, é um trabalho muito mais conjunto entre autor e revisor/preparador/copidesque do que individualmente do autor.

A capa não me agradou e isso é tudo o que digo sobre ela. Não posso comentar sobre a beleza do livro impresso porque li o e-book, mas achei as imagens - também disponíveis entre alguns capítulos do livro eletrônico - bem bonitas e condizentes com a história contada.

Natália optou pela escolha de um final completamente aberto, o que não me agrada completamente. Mesmo sabendo que se trata de uma série, gosto da sensação de arco fechado e de novas possibilidades para o futuro, ao invés de um final onde tudo fica em suspenso. Mas o que me deixou feliz foi o fato de que fiquei genuinamente curioso para saber o que acontece no segundo volume e estou esperando que ela termine de escrever para que possa ler o quanto antes.

Ler esse livro foi uma grata surpresa. Em primeiro lugar, porque não me considero público-alvo para ele, e ainda assim gostei bastante; e, em segundo, por se tratar do primeiro romance da autora, com um potencial gigantesco para se tornar uma ótima série. Natália Couto Azevedo soube condensar muito bem o fantástico com os sentimentos comuns a todos: da insegurança quanto a um trabalho onde tantas expectativas foram depositadas, do amor incipiente e a dúvida se ele é ou não correspondido, da confiança que nem sempre devemos ter àqueles que nos sorriem. Enfim, sobre a natureza humana, mesmo que com traços de fada.

Posted on terça-feira, julho 16, 2013 by Lucas Rocha

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13 de julho de 2013


Eu deveria estar escrevendo meu TCC, mas estou aqui para tirar as poeiras e as traças desse blog. Os hiatos estão cada vez maiores e as justificativas são muitas, mas não vou me estender muito nelas porque são todas aquelas que um aspirante a escritor e formando de penúltimo período de faculdade têm.

Semana passada, fui à FLIP pela primeira vez. Uma ótima experiência: gente boa dividindo casa comigo, sarau literário de madrugada, boa comida (fora a pizza, que os paulistas odiaram) e umas cachaças pra esquentar as madrugas frias de Paraty. Depois falo mais sobre isso. Ou não. Por enquanto, vou falar de um livro que ganhei por lá, li a toque de caixa – não por obrigação, mas por prazer – e que foi o grande responsável por me fazer parar o que estou fazendo na vida acadêmica para voltar a postar nesse blog. O livro “O evangelho segundo Hitler”, do paranaense Marcos Peres, vencedor do prêmio SESC na categoria de melhor romance do ano.

Lá estava eu, andando pelas pedras ingratas do chão de Paraty, quando o Raphael Montes (cuja resenha do livro pode ser vista aqui) me disse: ‘olha, hoje tem a entrega do prêmio SESC. Dá uma passada lá’. Eu já tinha ouvido falar alguma coisa sobre o prêmio SESC. Li o ‘Quiçá’, da Luisa Geisler (que ainda não resenhei) por conta do prêmio e sabia que, quem quer que fosse o vencedor, não seria um romance qualquer. Seria no mínimo uma história interessante, seja por forma ou conteúdo. Ou os dois.

Mas abreviando a história: caí no SESC meio sem querer, ganhei os livros – tanto o romance vencedor quanto o livro de contos estavam sendo distribuídos por moças simpáticas –, peguei autógrafos dos dois autores e o romance logo chamou minha atenção. Em primeiro lugar, pelo título (que, segundo Marcos Peres, não tem nenhuma relação com ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de Saramago) e também pela sinopse: segundo a história contada pela orelha do livro, Hitler teria elaborado a ideologia nazista a partir da leitura de Jorge Luis Borges. Essa ideia, por si só, já é incrível.

Então comecei a ler, curioso para saber o que me esperava. E não me arrependi nem por um segundo de ter colocado todas as minhas outras leituras em segundo plano e ter dado atenção ao Evangelho: logo de pronto, somos apresentados a Jorge Luis Borges – não o escritor, mas um homônimo –, aspirante a escritor que tem o estigma do mesmo nome de um importante escritor argentino e a certeza de que nunca será tão genial quanto o mestre bibliotecário. As coincidências são muitas: desde o nome à aparência física, passando pelos amores e pelas histórias contadas pelos dois Borges, há um jogo de espelhos onde o reflexo (que é nosso Borges-protagonista) sempre parece sublocado ao Borges-bibliotecário, como se fosse uma sombra, sempre encolhido atrás de sua figura principal.

Pois bem, essa confusão de nome acaba levando nosso Borges-protagonista a ser confundido com o Borges-bibliotecário. Interpelado por um grupo de alemães depois de uma série de desventuras amorosas, Borges-protagonista é tragado para o seio da Alemanha nazista, às rodas secretas e aos símbolos e fantasias megalomaníacas de Hitler, apoiadas por um grupo secreto sempre presente na história da humanidade.

Os ecos de Umberto Eco são latentes ao longo do romance. Mas, diferente do escritor italiano, Marcos Peres consegue dosar muito bem romance e didatismo, aventura e erudito; em nenhum momento me senti lendo um livro acadêmico – o que aconteceu nas ocasiões em que li o Eco e fiquei com vontade de pular umas vinte páginas de explicações que não fariam diferença no romance –, mas me senti lendo um desses romances policiais vertiginosos que não nos deixam ir embora. E tudo isso com um conteúdo extremamente bem construído. Não sei se Marcos Peres debruçou-se em uma pesquisa do zero com a vida e a obra de Jorge Luis Borges ou se é um desses fãs obsessivos que leu e analisou tudo sobre o autor. Nas duas opções, só consigo dizer parabéns pela ideia e pelas relações estabelecidas entre os contos de Borges e o nazismo.

A edição está muito bem feita, tanto capa como diagramação. Não achei nenhum erro de revisão escandaloso, nada que tenha ficado na minha memória como algo a ser comentado. Também não tenho nada a comentar quanto a defeitos narrativos: não consegui encontrar nada que mudaria na história que Marcos quis contar.

Para mim, uma das melhores leituras que fiz esse ano (senão a melhor). Achei muito boa a decisão do prêmio SESC de premiá-lo, mesmo que não seja um livro que trate de brasilidades, mas sim de Alemanha nazista e sociedades secretas. “Evangelho Segundo Hitler” é desses livros que divertem e ensinam, que te mostram uma teoria que a princípio não faz nenhum sentido, mas quando explicada te dá aquele sense of wonder de ‘é, até que isso realmente poderia ter acontecido’. E que te dá vontade de ler Jorge Luis Borges. Eu já peguei meu exemplar velhinho de ‘Ficções’ e dei uma relida. Vou pegar ‘O Aleph’ essa semana na biblioteca pública. E por aí vamos.

Marcos Peres, autor de "O Evangelho Segundo Hitler"

Posted on sábado, julho 13, 2013 by Lucas Rocha

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