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2 de outubro de 2013

Durante a Bienal 2013, passei muito tempo no estande da Gutenberg. E observei, com olhares atentos, uma pilha de livros verdes que parecia evaporar a cada vez que era reposto pelo pessoal que trabalhava ali. Era um livro que me chamou atenção pela capa estrategicamente neutra (no sentido de: não é um livro “de menina” nem “de menino”) e pela sinopse: ‘mutantes + distopia + aventura’. Hm, premissa interessante, pensei. Peguei um livro da pilha, paguei e levei para a autora, que estava ali no estande, autografando.

Foi aí que percebi que, mesmo que o livro fosse ruim (o que não é, de forma alguma), valeria a pena tê-lo comprado apenas por ter conhecido a autora. Impossível não começar a falar sobre esse livro sem falar da idealizadora por trás das páginas, a mega carismática Bárbara Morais. Ela, muito comunicativa e toda empolgada com o lançamento do livro, é uma pessoa incrivelmente gente boa. Estava lá cheia de sorrisos e disposição para assinar quantos livros fossem necessários e tirar quantas fotos fossem possíveis, sem diminuir o sorriso do rosto mesmo com a demanda incrivelmente alta. Depois, é claro, comecei meu processo de stalker e passei a segui-la no twitter, a ler o blog dela e adicioná-la no facebook. Isso só reafirmou a primeira impressão que tive: a Bárbara é sensacional.

Isso posto, vamos ao livro: “A Ilha dos Dissidentes” (ou AIDD, se você estiver com preguiça de escrever tudo) se passa em uma sociedade alternativa onde a humanidade se divide entre seres humanos ‘normais’ e ‘anômalos’. Os anômalos são seres que nascem com mutações genéticas que conferem a eles poderes especiais, como super-força ou habilidade de respirar embaixo d’água. No livro, acompanhamos a história de Sybil Varuna, uma menina que descobre não ser igual aos outros humanos. Sybil é a única sobrevivente do naufrágio de um navio que a levava de Kali – província empobrecida que está no meio de uma zona em guerra entre a União e o Império – para o continente Pacífico, que abriga refugiados escolhidos pelo governo para se verem livres das bombas e do terror.

Resgatada do naufrágio, Sybil percebe que sua vida mudará completamente: sendo uma anômala, ela não poderá voltar para Kali, mas será enviada para Pandora, uma província feita para concentrar anômalos – identificáveis a partir de suas roupas amarelas. Para a protagonista – uma garota órfã de uma região empobrecida e imersa em guerra – a possibilidade de mudança se mostra extremamente satisfatória: de uma hora para outra, ela é adotada por uma família que está feliz em tê-la entre os seus, experimenta pela primeira vez uma quantidade absurda de comidas gostosas; e, também pela primeira vez, consegue se relacionar com amigos da sua idade e firmar amizades verdadeiras.

A princípio, eu tinha torcido o nariz pra esse sentido clean da cidade de Pandora: tudo parece muito fácil para Sybil e meu hábito de leitura sabe que quando a esmola é demais o mendigo desconfia. Mas, aos poucos, fui entendendo que nada do que está ali é gratuito: a verdade é que Sybil sofreu muito na vida e, pela primeira vez, está em um lugar onde não precisa se preocupar com dividir a comida entre almoço e jantar.

A primeira metade do livro se foca mais nesse cotidiano de Sybil e nas relações dela com os amigos, além de possíveis e prováveis interesses amorosos: nesse momento, o enredo se preocupa menos em desenvolver uma história de ação e mais a desenvolver os relacionamentos entre os personagens, o que pode parecer um pouco lento para alguns, mas que para mim funcionou bem.

Sobre os personagens coadjuvantes: são todos muito bem construídos. Destaques para Leon, o anômalo cego que se vira muito melhor do que qualquer outro com visão; Andrei, que disputa com Sybil o posto de melhor-anômalo-da-água; e Ava, uma She-Hulk baixinha e super-forte. Os coadjuvantes são numerosos, mas cada um tem seu momento dentro da narrativa e são perfeitamente cabíveis; não sobra ninguém ali, mesmo que algumas funções sejam mais importantes do que outras.

Outro parêntese é o acerto da Bárbara Morais para a diversidade de etnias e de sexualidades dentro do livro. Temos gente de toda cor e de toda a sexualidade – até mesmo o heterossexual que se veste de mulher para apresentar um programa de televisão –, tudo colocado de uma forma muito natural e acertada, sem forçar barras de inclusão e/ou levantar bandeiras. Uma opção extremamente bem feita que enriqueceu muito a narrativa.

Já na segunda parte da história – depois de um ponto de virada que coloca nossos personagens em uma situação inesperada –, a ação toma conta da narrativa. E ela é frenética, com perseguições, tiroteios, correrias, bombas explodindo e pessoas quase morrendo a todo o momento. Se você estiver achando a primeira parte um pouco morosa e está com preguiça de continuar, meu conselho é: CONTINUE! Se você, assim como eu, é fã de ação, não vai se arrepender ao terminar de ler o livro. As viradas finais são extremamente bem construídas e o último capítulo fecha o primeiro volume da trilogia com uma série de perguntas que serão respondidas (assim espero) nos próximos dois volumes.

“A Ilha dos Dissidentes” é uma aventura daquelas que não dá pra parar de ler. Se você é fã de X-Men ou de quadrinhos de super-heróis em geral, vai se sentir extremamente confortável com a escrita da Bárbara; se não é fã, vai gostar igualmente do livro. Então tire suas roupas amarelas do armário e junte-se aos anômalos!

Posted on quarta-feira, outubro 02, 2013 by Lucas Rocha

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10 de setembro de 2013


Escrever uma opinião sobre o segundo livro de uma série é sempre muito difícil. Há aquela preocupação em não soltar spoilers, em não acabar falando mais do que devia e, ao mesmo tempo, tentar passar todas as sensações que a leitura me proporcionou. Escrevo esse texto em um momento eufórico, onde acabei de fechar o livro e corri imediatamente ao Word, tomando todo o cuidado necessário para não encher a caixa de e-mails do autor com pedidos e mais pedidos de TRANQUE-SE EM CASA, ESCREVA OS PRÓXIMOS LIVROS E SÓ VOLTE A VER O SOL QUANDO TERMINÁ-LOS!

Pois é. Foi exatamente assim que me senti quando terminei de ler “Prata, Terra e Lua Cheia” (Editora Gutenberg, 272 págs), do escritor paulista Felipe Castilho: com sede de quero mais. E isso já diz bastante sobre a história, que se constrói com um cuidado extremamente acertado no tom dos personagens e no desenvolvimento do enredo. É um daqueles raros livros que você só larga quando termina de ler e fica aflito quando acaba, esperando ansiosamente pela continuação.

Mas voltemos um pouco e vamos explicar sobre o que estou falando para aqueles que não tem a mínima ideia de quem é Felipe Castilho ou o que é a série que ele escreve. “Prata, Terra e Lua Cheia” é o segundo romance da série “O Legado Folclórico”, que teve como primeiro livro “Ouro, Fogo e Megabytes” – cuja resenha pode ser lida aqui. Os livros tem como protagonista um garoto nerd de 12 anos chamado Anderson Coelho, que mora no interior de uma cidade fictícia de Minas Gerais. Anderson é um garoto que prefere jogar RPG ao contato social, mas repentinamente se vê envolvido com uma Organização ambientalista e uma série de criaturas que, até então, nunca foi capaz de enxergar. No primeiro volume, Anderson enfrenta uma cuca, um grupo de capelobos e um boitatá gigante, entre outras feras presentes no folclore nacional.

Mas isso é o volume um e não estou aqui para falar dele. Então vamos ao que interessa.

No segundo livro, Anderson é novamente contatado pela Organização para embarcar em uma nova aventura: dessa vez, em uma ilha criada há muitos anos pela Iara e pelo Grande Caipora, com o objetivo de dar um fim às disputas territoriais entre o homem branco e os indígenas que viviam naquele pedaço de terra que outrora fizera parte do continente. A ilha, chamada Anistia, passou a ser palco de uma disputa que acontece periodicamente entre Organizações secretas e, por conta disso, Anderson é convocado a participar da próxima peleja. No entanto, mal sabe ele que os perigos que pode encontrar na ilha são muito mais mortais do que os que ele imagina.

No segundo volume d’O Legado, temos de volta uma série de personagens que deixaram saudades ao fim do volume um – entre elas, uma capivara que acha que é cachorro e uma arara falastrona. Esse sentimento de retorno é sempre muito bom, e me surpreendi ao perceber que, mesmo não tendo lido novamente o primeiro livro antes de começar o segundo, lembrei de praticamente todos os personagens que estavam presentes em “Ouro, Fogo e Megabytes”. Também somos apresentados a novos rostos, como o de uma metamorfa chiliquenta e um showman de programas de sobrevivência. O leque dos personagens é extremamente diversificado e, mesmo que algumas vezes eu tenha ficado um pouco perdido com a quantidade deles – principalmente no momento em que Anderson chega à ilha de Anistia –, aos poucos eles vão sendo desenvolvidos e digeridos pelo leitor, que passa a ter todos como companheiros.

Outra coisa que tenho que comentar é a ação praticamente incessante ao longo da história. O jogo que Anderson participa me remeteu imediatamente a Jogos Vorazes e Battle Royale. A comparação não nasce à toa: Anderson é incessantemente colocado à prova, tendo sempre sua vida posta em jogo para que possa continuar lutando por ela. Entre lobisomens e muiraquitãs, o protagonista passa por alguns apertos inacreditáveis e, quando acha que escapou de um problema, sempre aparece um maior para preocupá-lo mais (e o livro possui a melhor estratégia narrativa de um deus ex machina desde Scott Pilgrim). Os momentos de tensão estão dispersos ao longo de toda a narrativa, o que prende o leitor para sempre querer virar mais páginas e saber se o pescoço de Anderson sairá ou não ileso dali.

A utilização da mitologia continua ótima. Castilho possui o poder de manipular as lendas folclóricas – muitas vezes identificáveis a nós apenas pela obra de Monteiro Lobato – e devolvê-las ao leitor de uma forma completamente surpreendente e nova. Sem se preocupar com a sonorização de um nome indígena (que, para a maioria das pessoas, não é tão bonito quanto um nome europeu) ou com a utilização de criaturas oriundas da mitologia local, ele é muito feliz ao apresentar para o leitor seres que, à primeira vista, podem parecer pouco usuais ou sem graça, dando a elas uma roupagem por vezes soturna, por outras cômica, mas sempre levando em conta a adequação ao universo proposto por ele e a como determinada criatura pode se encaixar para dar mais movimento à narrativa.

Quanto às escorregadas de revisão, a editora parece ter tomado um cuidado dobrado para evitá-las ao máximo neste segundo volume. Vi apenas uma vírgula aqui e ali que eu suprimiria ou mudaria de lugar para dar mais fluidez ao texto, e não por estarem erradas; ponto para a preparação de texto da Gutenberg.

A capa continua seguindo o mesmo estilo (lindo) do primeiro volume, com o detalhe metálico no título que faz qualquer um que passe por uma livraria ficar com os olhos brilhando para ter o livro logo em mãos. Por dentro, o padrão de ilustrações por capítulo continua igual, com imagens que emulam xilogravuras belíssimas sobre a história.


Erros, defeitos, reclamação com a gerência? Sinceramente, nada muito relevante. Acho que a única coisa que me incomodou momentaneamente foi a quantidade excessiva de personagens no segundo terço do livro, mas isso logo foi sanado ao longo da história. Wagner Rios, o vilão, continua muito bem colocado e, neste livro, ganhou profundidade; Anderson também, com todas as suas escolhas éticas e as consequências que viu e ainda verá nos próximos volumes, foi um personagem construído com o intuito de cativar os leitores: por vezes chato, por outras extremamente inteligente, ele é o herói certo para o tipo de aventura que vive. Gostei particularmente da inserção da realidade dos sonhos/mortos, levando em conta todas as possibilidades que ela pode trazer para os próximos volumes.

Como destaque, posso citar as cenas dos lobisomens como as melhores do livro, tanto nas transformações quanto nas perseguições e na violência muito bem colocada para atingir um público mais novo e sedento por porradaria. O livro é excelente tanto para o público mais novo quanto para o mais velho. Anderson é um protagonista extremamente crível para um pré-adolescente esperto e cheio de fôlego para encarar aventuras.


O saldo final do livro é extremamente positivo. Ele consegue misturar ação, mitologia e diversão na medida certa para não ter em nenhum momento um tom chato ou pseudo-moralista. E CADÊ O VOLUME TRÊS?! (sem pressão, sem pressão...).

Posted on terça-feira, setembro 10, 2013 by Lucas Rocha

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2 de setembro de 2013


Setembro de anos ímpares é sempre assim para os cariocas amantes de livros: já começa de uma forma boa com a Bienal do Livro. Evento que acontece onde o Judas perdeu as botas no Riocentro, um amplo complexo multiuso que, para essa ocasião, é preenchido por estandes que vão desde livros sobre o final que nunca existiu da Caverna do Dragão (cheio, por sinal), passando pelos saldões desorganizados de livros a 5 e 10 reais (como eles conseguem ser tão baratos?!) e culminando nos estandes megalomaníacos das grandes editoras, recheados de fãs histéricos e desesperados por seus livros preferidos. Não importa se na internet é mais barato ou se as costas vão doer com o peso na mochila: ter o livro naquele momento é questão de honra.

Nesse ano não foi diferente: Bienal cheia, filas, gente doida por livros, filas, livros baratos, filas, livros caros, filas, filas, filas, filas... a Bienal se resumiu a filas. Filas para entrar no estande, para ir ao banheiro, para comer as comidas baratas e gostosas (sqn) de lá. As filas foram uma reclamação constante de todos, mas foram extremamente necessárias para organizar as coisas. O estande da Comix, por exemplo, só sobreviveu a uma guerra nerd por mangás porque havia um controle de quantas pessoas entravam e saíam. Ainda assim foi complicado se mexer no espaço apertado.

A legião de pessoas presente na Bienal era assustadora. Fui no domingo (01.09) e cheguei lá cedo, por volta das 10h. Fiquei todo feliz porque não tinha filas no caixa de entrada. Eu já tinha visto o caos que havia acontecido no sábado, com direito a dentadas em gente cadastrada e tudo mais, e pensei que domingo ia ser de boa, que ninguém ia ter a ideia genial de ir até o Riocentro e que o evento estaria um pouco (mas só um pouco) cheio.

Me enganei, ah, como me enganei.

Não foi de todo ruim, é claro. É Bienal, tem livros e tem gente legal, então sempre se aproveita alguma coisa. Nessa edição, consegui arrastar meu irmão (coitado, ficou decepcionado com os preços e com o catálogo pobre da Comix, mas pelo menos acabou comprando “As Vantagens de Ser Invisível”, que eu ainda não li), além da minha mãe e de uma amiga. Ficamos zanzando por lá e o primeiro estande em que entrei foi no pavilhão verde, chamado “Livraria São Marcos”. Um sebo que tem livros baratíssimos, mas que possui a grande desvantagem de desorganização. O dono do estande estava gritando que daria cinco mil reias para quem organizasse todos os livros até o fim do dia. Minha mãe gritou que eu era bibliotecário enquanto eu afundava minha cara em um livro qualquer, e é claro que ninguém se candidatou a ficar mais rico. Saí de lá com “Cock & Bull - Histórias para boi dormir” (um dos dois livros que a Geração Editorial publicou do Will Self) e “Papéis inesperados” do Julio Cortázar. Paguei R$28 nos dois. Pechincha.

Depois fui para o pavilhão azul, que se resumiu em: pânico. A fila do estande da Intrínseca (com livros a R$2, R$5 e R$9) dava uma volta de 360° para pagar; no estande da Panini, a fila para entrar era maior ou tão grande quanto a da Comix; na Saraiva, você parecia ter antecipado o Rock In Rio e estar no meio de uma apresentação do Metallica.

Por sorte, o estande do Grupo Objetiva estava transitável e cheio de promoções boas. Eles não tiveram a mesma ideia da última edição da Bienal (onde colocaram TODOS os livros da Ponto de Leitura a R$10), mas ainda assim a maior parte dos livros estava a esse preço ou até mais barato. Tentei caçar algum do Stephen King, mas eu já tinha todos (he he) e acabei comprando “A Guimba” e “Como vivem os mortos”, ambos do já citado Will Self (eu já falei que gosto MUITO MESMO do Will Self?), além de “Noite tropicais” do Nelson Motta e “Era no tempo do rei” do Ruy Castro (ambos edições de bolso da Ponto de Leitura). Os livros do Self, publicados pelo selo Alfaguara, estavam com 50% de desconto. No total, paguei R$71, o que não foi exatamente barato, mas também não foi a coisa mais cara do mundo (visto que, né, Alfaguara e tudo mais).

O pavilhão laranja é um pouco mais dedicado a livrarias universitárias, espaços alugados, divulgação de concursos, etc e tal. Por questões de falta de interesse tempo, não fiquei muito por lá. Acabei esbarrando com o Estevão Ribeiro, criador d’Os Passarinhos e dos Pequenos Heróis, entre outras preciosidades, e ele disse que estaria no estande da Gutemberg. Eu, que já tinha planos de ir lá para encontrar com o Felipe Castilho, segui sozinho até o estande, que estava lindo e cheio de promoções (como não poderia deixar de ser). Lá, comprei “Prata, terra & lua cheia”, do über sensacional Felipe Castilho; “O rei negro”, do escritor italiano Mark Menozzi; e “Joe Golem e a cidade submersa”, do Mike Mignola e do Christopher Golden, com tradução do Eric Novello. Paguei R$75 nos três livros (um belo desconto) e fiquei por lá. Nesse meio tempo, encontrei a Ana Cristina Rodrigues, que me mostrou a primeira edição da Revista Bang Brasil, que se dedicará ao mercado e ao gênero de literatura fantástica. Tem coisas lindas lá dentro (incluindo uma matéria do “Locke & Key”, yeah!) e eu só acho que vocês tinham que ler a revista, assim, anteontem.

Eu, no meu modo fanboy ligado,
pegando autógrafo do Castilho

Peguei um autógrafo do Felipe Castilho (que estava imerso em espirros e nariz vermelho, mas estava lá firme e forte, todo sorrisos com seu filhão mais novo) e acompanhei, junto com a Ana Cristina Rodrigues, a movimentação assustadora no estande com o lançamento e sessão de autógrafos dos livros “A ilha dos dissidentes”, da Bárbara Morais, e “De volta aos quinze”, da Bruna Vieira. Sério, caras, aquilo era de deixar qualquer um de olhos arregalados. As meninas que trabalhavam no estande iam para o estoque e voltavam carregadas com os livros e, quando davam as costas, as pilhas tinham magicamente sumido e a fila tinha ganhado uma nova parcela de gente doida para pagar e ir logo para os autógrafos. Encontrei a Iris Figueiredo por lá e falei brevemente com ela, que estava feliz com o sucesso da amiga Bárbara e não parava de sorrir (nota mental: comprar “A ilha dos dissidentes”). Também esbarrei com o Marcelo Amaral, criador “d’A Máquina Antibullying”, e com a esposa dele, mas infelizmente não parei muito para conversar.

Depois da maratona, passei em um estande que não lembro o nome e que ficava em frente ao estande da Gutemberg. Achei os maravilhosos “Independência ou mortos”, roteirizado pelo Abu Fobiya e ilustrado pelo Harald Stricker; e “No direction home – a vida e a música de Bob Dylan”, do selo Larousse. Paguei R$40 nos dois livros, um desconto sensacional.

Depois – só por obrigação – fui me aventurar para comer alguma coisa. Comi um yakissoba caro e não necessariamente gostoso com uma coca-cola. R$28. Dava pra comprar uns 5 livros naqueles estandes-saldões. Sério, a comida lá é muito cara, mas eu não tinha levado nada além de água, e já estava sem comer desde o café da manhã. Fui para a praça de alimentação (onde reencontrei meus familiares) e bati um papo com o Felipe Castilho (que é vegetariano, o que fez sua experiência gastronômica ser ainda mais sofrível com uma quiche de alho-poró).

E depois fui para casa. Ouvi um disco da Björk, um do Bob Dylan e um do The Doors ao longo do percurso. Dormi o que pareceram quatro horas e ainda conversei o que pareceram mais quatro com a minha mãe, que sentou do meu lado.

Ao fim de tudo isso, entramos em Ipanema.

Era a metade da minha viagem de volta para casa.

Minha pilha de livros \o\o/o\o/

Posted on segunda-feira, setembro 02, 2013 by Lucas Rocha

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16 de julho de 2013


Sonhar está entre as constantes da vida. Sem ideações filosóficas, sonhamos praticamente todos os dias, com paisagens surrealistas e monstros de três cabeças que precisamos enfrentar - e que nunca sabemos se vencemos ou não, uma vez que sempre acordamos antes do sonho ter seu desfecho cinematográfico. É partindo dessa premissa de sonhos que Natália Couto Azevedo constrói seu romance, "O Reino dos Sonhos: A Cidade de Cristal", primeiro de uma série ainda em andamento.

Conheci a Natália durante a FLIP 2013: tivemos a oportunidade de dividir a mesma casa e, por lá, fizemos um sarau durante uma das madrugadas. Natália leu o início de uma história na qual está trabalhando, e não pude deixar de ser fisgado pela narrativa dela: é comum desconfiarmos de livros de novos autores - "pouco tempo, muitos livros", blá blá blá -, mas a prosa dela me deixou convicto de que o livro seria no mínimo interessante. Ainda ao lado dela, acionei meu precário 3G e comprei a edição eletrônica na Amazon (uma pechincha e um ótimo negócio para mim, não sei se muito bom para ela, diga-se de passagem) e ainda preciso desenvolver uma tecnologia para que ela possa autografá-lo.

Foi então que, três dias após o fim da viagem, deitado no sofá da sala e tentando colocar as ideias no lugar para elaborar os primeiros passos do malfadado projeto de conclusão de curso, comecei a ler despretensiosamente. Pensei que fosse ler um ou dois capítulos e depois largar para lá, continuar com minhas leituras atuais e depois voltar ao livro em outra oportunidade. Só que, assim como a história que ela contou durante nosso sarau improvisado, me senti imediatamente fisgado pela narrativa de "O Reino dos Sonhos".

O plot da história é bem comum aos adeptos de romances young adults: a jovem Elorá, dezessete anos, estudante de primeiro ano de artes plásticas e desajustada social, está às voltas com sonhos bem estranhos, envolvendo um universo de florestas e seres com asas que contemplam a natureza; como forma de se expressar, pinta as imagens que vê em seus sonhos e tudo o que quer da vida é que sua orientadora a admire, que sua tia pare de reclamar e que o garoto por quem timidamente se apaixonou repare nela.

Natália Couto Azevedo foi muito feliz ao delinear sua protagonista: a voz dela é extremamente condizente com os dilemas de uma adolescente de primeiro ano de faculdade; senti, no entanto, alguns ecos excessivos de ensino fundamental e médio no relacionamento que ela tem com os amigos de corredor, adeptos ao bullying. Não sei se é algo que se encaixe apropriadamente na faculdade, onde tudo é dito de forma um tanto mais velada do que no colégio.

Mas, se por um lado ela peca com os personagens que não tem importância para o eixo narrativo, por outro ela acerta em cheio com os coadjuvantes: a escolha de poucos personagens para o número de páginas do livro coube na medida certa para que cada um fosse aprofundado devidamente. Gabriel e Leila, amigos de Elorá, são os que mais se destacam; mas também temos o irmão da protagonista, Felipe; a orientadora, Iris; a tia chata, Virgínia; e até sua gata de estimação, Lilás (ótimo nome para uma gata), todos muito bem articulados e com papéis muito bem definidos ao longo da história, que sempre está em constante movimento, apresentando novos conflitos, sejam eles de cunho pessoal ou que englobem a relação entre Elorá e o mundo dos sonhos.

Até mais ou menos metade da narrativa, estamos visualizando muito mais a Elorá humana do que a feérica: seus problemas afetivos e acadêmicos são o centro da narrativa. Na segunda metade, somos finalmente apresentados aos problemas que envolvem o mundo dos sonhos e os motivos que levam a protagonista a ter papel central naquela dimensão paralela. Para ser sincero, achei a segunda parte um tanto mais empolgante do que a primeira, mesmo que não descarte a importância dos dilemas pessoais de Elorá.

Um ponto que me deixou um pouco desconfortável foi a preparação de texto, principalmente o uso excessivo de vírgulas quando poderiam ser utilizados outros artifícios que dessem maior ritmo e fluidez ao texto, como ponto-e-vírgula ou mesmo pontos finais. Não vi erros gramaticais nem repetições de sentenças, não vi redundâncias ou problemas de acentuação. Natália escreve bem, com um vocabulário invejável a qualquer um que esteja publicando seu primeiro romance; acredito que, nesse caso, é um trabalho muito mais conjunto entre autor e revisor/preparador/copidesque do que individualmente do autor.

A capa não me agradou e isso é tudo o que digo sobre ela. Não posso comentar sobre a beleza do livro impresso porque li o e-book, mas achei as imagens - também disponíveis entre alguns capítulos do livro eletrônico - bem bonitas e condizentes com a história contada.

Natália optou pela escolha de um final completamente aberto, o que não me agrada completamente. Mesmo sabendo que se trata de uma série, gosto da sensação de arco fechado e de novas possibilidades para o futuro, ao invés de um final onde tudo fica em suspenso. Mas o que me deixou feliz foi o fato de que fiquei genuinamente curioso para saber o que acontece no segundo volume e estou esperando que ela termine de escrever para que possa ler o quanto antes.

Ler esse livro foi uma grata surpresa. Em primeiro lugar, porque não me considero público-alvo para ele, e ainda assim gostei bastante; e, em segundo, por se tratar do primeiro romance da autora, com um potencial gigantesco para se tornar uma ótima série. Natália Couto Azevedo soube condensar muito bem o fantástico com os sentimentos comuns a todos: da insegurança quanto a um trabalho onde tantas expectativas foram depositadas, do amor incipiente e a dúvida se ele é ou não correspondido, da confiança que nem sempre devemos ter àqueles que nos sorriem. Enfim, sobre a natureza humana, mesmo que com traços de fada.

Posted on terça-feira, julho 16, 2013 by Lucas Rocha

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13 de julho de 2013


Eu deveria estar escrevendo meu TCC, mas estou aqui para tirar as poeiras e as traças desse blog. Os hiatos estão cada vez maiores e as justificativas são muitas, mas não vou me estender muito nelas porque são todas aquelas que um aspirante a escritor e formando de penúltimo período de faculdade têm.

Semana passada, fui à FLIP pela primeira vez. Uma ótima experiência: gente boa dividindo casa comigo, sarau literário de madrugada, boa comida (fora a pizza, que os paulistas odiaram) e umas cachaças pra esquentar as madrugas frias de Paraty. Depois falo mais sobre isso. Ou não. Por enquanto, vou falar de um livro que ganhei por lá, li a toque de caixa – não por obrigação, mas por prazer – e que foi o grande responsável por me fazer parar o que estou fazendo na vida acadêmica para voltar a postar nesse blog. O livro “O evangelho segundo Hitler”, do paranaense Marcos Peres, vencedor do prêmio SESC na categoria de melhor romance do ano.

Lá estava eu, andando pelas pedras ingratas do chão de Paraty, quando o Raphael Montes (cuja resenha do livro pode ser vista aqui) me disse: ‘olha, hoje tem a entrega do prêmio SESC. Dá uma passada lá’. Eu já tinha ouvido falar alguma coisa sobre o prêmio SESC. Li o ‘Quiçá’, da Luisa Geisler (que ainda não resenhei) por conta do prêmio e sabia que, quem quer que fosse o vencedor, não seria um romance qualquer. Seria no mínimo uma história interessante, seja por forma ou conteúdo. Ou os dois.

Mas abreviando a história: caí no SESC meio sem querer, ganhei os livros – tanto o romance vencedor quanto o livro de contos estavam sendo distribuídos por moças simpáticas –, peguei autógrafos dos dois autores e o romance logo chamou minha atenção. Em primeiro lugar, pelo título (que, segundo Marcos Peres, não tem nenhuma relação com ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de Saramago) e também pela sinopse: segundo a história contada pela orelha do livro, Hitler teria elaborado a ideologia nazista a partir da leitura de Jorge Luis Borges. Essa ideia, por si só, já é incrível.

Então comecei a ler, curioso para saber o que me esperava. E não me arrependi nem por um segundo de ter colocado todas as minhas outras leituras em segundo plano e ter dado atenção ao Evangelho: logo de pronto, somos apresentados a Jorge Luis Borges – não o escritor, mas um homônimo –, aspirante a escritor que tem o estigma do mesmo nome de um importante escritor argentino e a certeza de que nunca será tão genial quanto o mestre bibliotecário. As coincidências são muitas: desde o nome à aparência física, passando pelos amores e pelas histórias contadas pelos dois Borges, há um jogo de espelhos onde o reflexo (que é nosso Borges-protagonista) sempre parece sublocado ao Borges-bibliotecário, como se fosse uma sombra, sempre encolhido atrás de sua figura principal.

Pois bem, essa confusão de nome acaba levando nosso Borges-protagonista a ser confundido com o Borges-bibliotecário. Interpelado por um grupo de alemães depois de uma série de desventuras amorosas, Borges-protagonista é tragado para o seio da Alemanha nazista, às rodas secretas e aos símbolos e fantasias megalomaníacas de Hitler, apoiadas por um grupo secreto sempre presente na história da humanidade.

Os ecos de Umberto Eco são latentes ao longo do romance. Mas, diferente do escritor italiano, Marcos Peres consegue dosar muito bem romance e didatismo, aventura e erudito; em nenhum momento me senti lendo um livro acadêmico – o que aconteceu nas ocasiões em que li o Eco e fiquei com vontade de pular umas vinte páginas de explicações que não fariam diferença no romance –, mas me senti lendo um desses romances policiais vertiginosos que não nos deixam ir embora. E tudo isso com um conteúdo extremamente bem construído. Não sei se Marcos Peres debruçou-se em uma pesquisa do zero com a vida e a obra de Jorge Luis Borges ou se é um desses fãs obsessivos que leu e analisou tudo sobre o autor. Nas duas opções, só consigo dizer parabéns pela ideia e pelas relações estabelecidas entre os contos de Borges e o nazismo.

A edição está muito bem feita, tanto capa como diagramação. Não achei nenhum erro de revisão escandaloso, nada que tenha ficado na minha memória como algo a ser comentado. Também não tenho nada a comentar quanto a defeitos narrativos: não consegui encontrar nada que mudaria na história que Marcos quis contar.

Para mim, uma das melhores leituras que fiz esse ano (senão a melhor). Achei muito boa a decisão do prêmio SESC de premiá-lo, mesmo que não seja um livro que trate de brasilidades, mas sim de Alemanha nazista e sociedades secretas. “Evangelho Segundo Hitler” é desses livros que divertem e ensinam, que te mostram uma teoria que a princípio não faz nenhum sentido, mas quando explicada te dá aquele sense of wonder de ‘é, até que isso realmente poderia ter acontecido’. E que te dá vontade de ler Jorge Luis Borges. Eu já peguei meu exemplar velhinho de ‘Ficções’ e dei uma relida. Vou pegar ‘O Aleph’ essa semana na biblioteca pública. E por aí vamos.

Marcos Peres, autor de "O Evangelho Segundo Hitler"

Posted on sábado, julho 13, 2013 by Lucas Rocha

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15 de fevereiro de 2013





Sempre admirei muito o trabalho de Hitchcock. Durante meus tempos de colégio e exploração pelo catálogo de filmes clássicos na locadora (nem parece que faz só uns cinco anos quando a gente fala hoje em dia de locadoras, esses itens raros e cada vez menos presentes em nosso cotidiano, mas isso é papo para outro post), vibrei quando vi James Stewart com uma perna engessada e meio paranoico com um vizinho que poderia ser um psicopata; ou quando ele subia uma pequena escada e olhava para cima e para baixo, para cima e para baixo, e então ficava com vertigem e quase caía. Mas foi apenas com Psicose – que eu vi lá pelos meus treze ou catorze anos – que percebi como o cinema pode ser atemporal. Era uma história vibrante que poderia acontecer muito bem nos dias de hoje, dadas as pequeníssimas adaptações históricas: mulher rouba dinheiro, foge, vai até hotel macabro e descobre que filho e mãe possuem uma relação bastante conturbada. E depois desaparece. Simples e direto. Ouso dizer que Psicose foi um de dois ou três filmes responsáveis por me fazer gostar de cinema clássico – e por clássico quero dizer antigo mesmo. Psicose foi responsável por tirar de mim a urgência hollywoodiana de planos picotados e frames de 0,5 segundo em cenas de ação.

Então, quando vi que a Intrínseca traduziu um dos principais livros sobre os bastidores da filmagem, datado de 1990 e publicado por motivos da adaptação cinematográfica, fui correndo para comprá-lo. Li a edição digital em menos de dois dias, tanto por ser um livro breve quanto por ser extremamente bem escrito e interessante.

Janet Leigh com medo de morrer
Stephen Rebello é bastante feliz ao reconstruir os anos 50 e 60 com assertividade, e de modelar a história de ‘Psicose’ desde antes de Hitchcock ou do livro que deu origem ao filme. “Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose” se inicia com a descrição de uma série de assassinatos cometidos por Ed Gein nos anos 50, e a subsequente descoberta, por parte da polícia, de um quarto repleto de móveis e roupas confeccionadas com pele humana feminina; a teoria mais aceita é a de que Gein pretendia fazer uma ‘roupa feminina’ para que emulasse ser sua mãe enquanto cometia os assassinatos.

Esse foi o ponto de partida para Robert Bloch, romancista pulp, construir o romance ‘Psicose’: como o livro de Stephen Rebello descreve, misturou-se crueldade, uma série de assassinatos e psicanálise barata (Freud era a grande sensação da época) em um caldeirão e pronto, nascia um romance. Romance esse que ficaria relegado ao esquecimento, dada a proporção de romancistas policiais nos anos 40 e a proliferação de títulos obscuros, não fosse as mãos ágeis de Hitchcock.

Pôster do filme Psicose (com uma
mulher só de sutiã, absurdo na época!)
“Bastidores de Psicose” é dividido em três partes: pré-produção, produção e pós-produção. Nele, somos apresentados a todo o panorama hitchcockiano que, ironicamente, o próprio Hitchcock vivia: rico e bem-sucedido, mas em crise, principalmente por seus últimos filmes (‘Intriga Internacional’ e ‘Um Corpo que Cai’, hoje clássicos) não terem sido exatamente sucessos de público e crítica à época. A Universal não acreditava que ele pudesse apresentar um bom material e pouco crédito dava a ele. O diretor, ao descobrir o romance de Bloch e perceber que aquele poderia ser um próximo filme, começou sua odisseia para torná-lo real.

É muito interessante mergulhar em todo o processo de produção do filme. Desde o juramento que Hitchcock obrigou todos os envolvidos no filme a fazerem para que não revelassem nada sobre as gravações, passando pela já clássica história de que o diretor comprou todos os exemplares do livro de Bloch para que ninguém descobrisse o final e culminando na gigantesca campanha de marketing e no sucesso absurdo e inexplicável que o filme fez – que envolveu gritos e pessoas desmaiando nas salas de cinema durante as cenas clássicas do chuveiro, do assassinato na escada e do cadáver sentado na cadeira giratória. O livro é extremamente eficiente ao desdobrar todos esses acontecimentos, tendo sempre em Hitchcock a figura central para todos os acertos e percalços pelos quais a produção passou.

Anthony Hopkins como
Alfred Hitchcock
Como já disse um pouco acima, o livro recebeu uma adaptação pelas mãos do diretor Sacha Gervasi (é, também não o conheço, mas catei no IMDB e ele dirigiu aquele “O Terminal”, filmezinho mais ou menos com o Tom Hanks) e teve como protagonistas Anthony Hopkins (impecável, as allways) como Alfred Hitchcock e Helen Mirren (também impecável) como Alma Hitchcock, esposa do diretor. O filme, como qualquer adaptação, sofre com alguns cortes, mas também é bastante divertido: desde a alusão ao programa televisivo de Hitchcock logo no início e os tons irônica e excessivamente coloridos, meio parecidos com os filmes do Almodóvar, passando pelas grandes atuações dos protagonistas e – porque não – dos coadjuvantes também. Só achei um pouco desnecessárias as cenas constantes sobre os assassinatos de Ed Gein, sempre presentes no filme como interlúdios.

Para quem gosta de Hitchcock, acho uma leitura indispensável; aos que não conhecem, sugiro que vejam o filme antes de se embrenharem pela leitura do livro ou pelo filme de Gervasi. Assistir ‘Psicose’ pela primeira vez, sem ter ideia do que esperar ou do que o final reserva, é uma experiência pela qual todos deveriam passar. Sem sombra de dúvidas, é uma daquelas histórias que ficam na sua memória por muito tempo, com cenas icônicas e personagens que, mesmo que apareçam brevemente, são eternos.

PS:. ‘Bates Motel’, série da A&E baseado no filme de Hitchcock, está para sair. Dá uma conferida no trailer, parece que vai ser bem interessante.


PS2: ‘Psicose’ tem três continuações e uma refilmagem de 1998, e ‘Bates Motel’ possui um filme de 1987. Faça um favor a você mesmo e não assista a nenhum desses derivados. É sério. Depois não diga que eu não avisei. A vida é muito curta.

Até mais!

Posted on sexta-feira, fevereiro 15, 2013 by Lucas Rocha

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11 de outubro de 2012

Ler clássicos sempre é um desafio a ser superado. Não pela linguagem, pelo estilo ou pelos anacronismos que certamente permeiam, sobretudo, a ficção científica; mas pela oportunidade de tentar compreender como determinada obra se tornou um cânone e de que forma isso influenciou ou influencia as gerações descendentes dela. Comprei um livro do Harold Bloom que discute a invenção do cânone e como ele é determinado – para Bloom, cânone são “os livros escolhidos pelas nossas instituições de ensino” (e eu o vejo falando isso com a maior troll face do universo). É claro que isso é uma piadinha academicista; o cânone, para mim, é tudo aquilo que possui força suficiente para influenciar ou determinar estilos de trabalhos futuros. Nesse sentido, Philip K. Dick se destaca por ser um dos mais canônicos escritores de ficção científica que já andou entre meros mortais.

Quem já viu “Blade Runner – O Caçador de Androides” deve ter alguma noção sobre o tema central desse livro, que originou o filme. Mas não pensem vocês que o filme é a representação fiel do livro, porque nesse caso a palavra ‘adaptação’ tem todo o seu peso. O filme mostra apenas uma parte da trama e, por mais bonito e filosófico que seja, não está nem um pouco próximo de todas as questões que perpassam a vida do protagonista Deckard no livro.

Àqueles que não sabem do que se trata essa história, uma breve sinopse: na história, acompanhamos a aventura de Rick Deckard, um caçador de recompensas vivendo em uma San Francisco pós-apocalíptica de 1992, onde a maior parte da população partiu para Marte e a Terra não passa de um lugar inóspito, carregado de partículas nucleares e prédios abandonados. Deckard assume o caso de Dave Holden: caçar seis androides Nexus-6 que estão se passando por humanos na Terra. Os ecos do pessimismo da Guerra Fria são mais presentes do que nunca no romance, e o fator contexto histórico deve ser bem observado pelos mais novos: guerra nuclear, corrida espacial e colonização de Marte, carros voadores... tudo nessa ficção científica ecoa aos anos sessenta.

Em paralelo, temos a história de John Isidore, um homem que permaneceu na Terra por não ter demonstrado possuir QI suficiente para viajar até Marte. Conhecido por ser um chickenhead (alguma coisa como ‘cabeça de vento’ em uma tradução bem porca e apressada), Isidore vive em um prédio abandonado, onde acha que está sozinho até ser interceptado por uma mulher atraente, a qual ele, diferente do leitor, demora para perceber que é um androide (e se você acha que isso é spoiler... bem, acho que você é tão chickenhead quanto ele).

Muitas questões são levantadas durante o livro: religião, alienação, status social e, majoritariamente, a humanidade dos personagens. A sacada de K. Dick é genial. Os Nexus-6 são criaturas desenvolvidas não como robôs – com fios, painéis de controle e aço inoxidável –, mas sim como criaturas orgânicas que possuem memórias implantadas para acharem que são realmente humanos. Onde começa e termina a humanidade de cada um? O que define quem são os humanos e os androides, quando tudo o que os diferencia é o tempo de vida reduzido das criaturas sintéticas? Não há respostas no livro: Deckard, por ser os olhos do leitor, passa por um processo de desconstrução que começa com ele dando pouco valor aos androides e se desenvolve com questões que o colocam em cheque, e o relacionamento dele com os androides vai pouco a pouco saindo do campo do desprezo para o de se colocar no lugar deles e tentar entender o que eles sentem – porque, afinal de contas, eles sentem, não é?

A religião é um dos pontos centrais e mais explorados da narrativa. Com a guerra nuclear, praticamente todos os animais que viviam na Terra foram ou extintos ou reduzidos a um número próximo da extinção. Com isso, os poucos que sobraram passaram a ser comprados e idolatrados como parte integrante de uma nova religião, chamada Mercerismo. Quem não tem dinheiro para comprar um animal vivo, mas ainda quer manter as aparências, pode adquirir um elétrico por um precinho camarada e ninguém precisa saber. E o animal, agora parte de seu cotidiano, passa a ser a coisa mais importante que existe em sua vida. Deckard ama mais sua ovelha elétrica do que sua esposa, K. Dick diz em um momento do romance. O animal real, que um dos personagens adquire ao longo da trama, passa a ser idolatrado como hoje idolatramos uma nova tecnologia que não sabíamos que precisávamos. Essa crítica ao consumismo, à idolatria e ao poder do dinheiro, de fazer novos ídolos e elevá-lo ao status divino pelo preço que valem dialoga bastante com o que acontece hoje – com o que acontece desde sempre. Ponto para Dick.

Não sei se há algum ponto negativo que possa citar. Diferente de “O Homem do Castelo Alto” – ao qual tenho algumas ressalvas, não sei se por ter lido uma tradução mal-feita dos anos 90 ou se por não ter de fato gostado da história –, ‘electric sheep’ é um romance completo e sucinto. Suas 256 páginas passam rapidamente, com a dose certa de ação e contemplação. É uma história que todos – principalmente aqueles que curtiram o filme – devem ler.

Posted on quinta-feira, outubro 11, 2012 by Lucas Rocha

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6 de outubro de 2012



Pense em cucas, sacis, capelobos, lobisomens, sereias, botos e outras criaturas mitológicas do folclore brasileiro sem aquela roupagem tatibitate de ‘orgulho nacional’, ‘precisamos mostrar nossa identidade para o mundo’ e todo esse discurso pseudo-nacionalista. Pense neles apenas como criaturas bacanas para ser utilizadas em uma história de fantasia. Pois é. Foi exatamente assim que Felipe Castilho pensou quando construiu seu romance “Ouro, Fogo & Megabytes” (Editora Gutenberg, 286p.): sem encher seu saco e dizer que você precisa engolir folclore nacional só porque você é brasileiro e tem que ter orgulho disso, mas porque pode ser uma alternativa divertida pra caramba.

A história – a primeira de uma série de quatro livros – gira em torno de Anderson Coelho, um geek interiorano de 12 anos de idade que tem como único objetivo de sua breve vida ser o primeiro colocado no jogo de MMORPG Battle of Asgaroth. E ele está quase lá, em segundo lugar, perdendo apenas para o misterioso Esmagossauro. E todo esse tempo sentado em frente ao computador faz com que Anderson seja um desastre em qualquer outro tipo de atividade, sobretudo as físicas. Depois de uma aula de Educação Física que resulta em uma suspensão de três dias, o garoto se desespera: como contar para os pais que foi suspenso?

Um homem batendo à sua porta pode ser a alternativa para Anderson sair ileso: Zé, um anão sorridente a la Nelson Ned, diz aos pais do garoto que ele foi convocado para um campeonato de Matemática em São Paulo, que cobrirá os três dias de suspensão do garoto. O anão, no entanto, faz parte de uma Organização (com ‘O’ maiúsculo mesmo) que pretende dissolver os planos do magnata Wagner Rios, multimilionário que vem usurpando os recursos da natureza e utilizando a Mãe D’Ouro, uma elemental do fogo. A Organização precisa de Anderson para invadir as redes de computador das empresas de Rios e orquestrar um ataque que possa desestabilizar os planos do homem.

A partir daí, Anderson enfrenta um milhão de situações diferentes: conhece criaturas fantásticas, duela com tantas outras e vai aos poucos aprendendo tudo o que nunca soube sobre problemas ambientais e a influência dos homens na desestabilização da natureza.

Em primeiro lugar, tenho que dizer que esse é um livro muito competente. Já falei lá em cima e repito: Castilho conseguiu utilizar a roupagem do folclore sem cair no discurso nacionalista chato e forçado que muita gente utiliza quando escreve sobre folclore nacional. Ele conseguiu fazer um texto leve e agradável, que não soou ‘criaturas fantásticas brasileiras em uma fórmula de roteiro norte-americano’: Anderson é um moleque que mora em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, mas não é apaixonado pela roça ou pelos livros; gosta mesmo é de ficar enfurnado no quarto jogando RPG. É um garoto comum dos tempos atuais, que reclama de internet 3G e enfrenta os valentões da escola com a perícia de um desengonçado. Curti muito a construção do personagem, porque ele pareceu extremamente real: não é ingênuo e, apesar da pouca idade, já tem muitas opiniões sobre tudo o que o cerca. Acho que o grande mérito de Anderson é esse: não ser um pamonha. Ponto para o autor.

Outra apropriação muito bem feita foi o das criaturas folclóricas: desde o Patrão, um saci rabugento, passando por Zé, um meio-caipora ativado por aguardente de açaí, passando por meio-sereias, botos, lobisomens-guará, capelobos-capangas, o boitatá (o boitatá *-*) e a Mãe D’Ouro, todos caíram muito bem na narrativa e conseguiram se encaixar muito bem em suas funções dentro da história.

Quanto ao enredo, não tenho nada para reclamar: achei que foi bastante consistente do início ao fim. O clímax final é incrível, que me fez devorar quase 150 páginas em umas duas horas só para saber o que raios ia acontecer no final – que deixa qualquer filme de ação no chinelo com o tanto de tiros, helicópteros e UM BOITATÁ SUBINDO POR UM PRÉDIO! Os acontecimentos são passados com a velocidade certa para que possamos digeri-los sem que fiquemos perdidos; revelações são muito bem encaixadas em seus devidos lugares, e não percebi nenhuma ponta solta muito grave ao final da narrativa. Parece que tudo o que ficou em aberto ficou de forma consciente, para que fiquemos ansiosamente esperando pelo volume dois da história.

Um dos principais pontos-chave é o apelo educacional e, ao mesmo tempo, divertido que o livro possui. É uma história bem bacana para a molecada da idade do Anderson ou um pouco mais novos, porque consegue dosar muito bem as partes mais educativas sem apelo pedagógico, tanto para as criaturas folclóricas quanto para as questões ambientais colocadas no texto, além de temas como manipulação da mídia e desigualdade de camadas sociais diferentes. Também é um ótimo livro para adultos, exatamente por tratar desses mesmos temas. É aquele tipo de livro que passa mensagens para qualquer idade.

A capa é incrível, e as ilustrações internas também. Parabéns ao Octavio Cariello pela capa belíssima – com uma das cenas mais sensacionais do livro, vale ressaltar – e pelas ilustrações internas do Thiago Cruz. Não sei se foi ou não a intenção – acredito que sim –, mas as ilustrações me lembraram bastante das xilogravuras do Nordeste utilizadas na literatura de cordel. Intencional ou não, ficaram excelentes.


Inevitável falar sobre a comparação que todo mundo faz com Percy Jackson e Os Olimpianos. Acredito que tenha alguma relação, mas é aquela de parâmetros comparativos que as pessoas precisam ter para avaliar a qualidade de uma obra. Eu, particularmente, acho Percy Jackson um livro ‘ok’, que não me empolgou muito a continuar lendo. Se essa comparação é mesmo válida, acho que quem gosta de Percy com certeza vai adorar ‘Ouro, Fogo & Megabytes’. Para mim, está uns dez degraus acima, sem nem pestanejar.

Se pudesse apontar um problema dentro do livro, seria a revisão. Não é a pior que já li, não mesmo, mas há algumas coisas que deixam um pouco a desejar. Falta de quebra de linhas de uma cena para outra, algumas vírgulas fora do lugar, outros pronomes desnecessariamente repetidos... coisas que uma olhada para uma segunda edição podem ser facilmente resolvidas. Nada que atrapalhe o produto final da leitura.

Enfim, acho que é um livro que todos devem ler. Não pra fomentar a literatura nacional ou ter orgulho de lobisomens e sereias no acervo de criaturas mitológicas das nossas terras tupiniquins – não que isso não seja motivo de orgulho, é claro que é – mas para aprender algumas coisas que podem ser modificadas, sobretudo acerca da natureza. E para se divertir, é claro, como todo bom livro de aventura deve ser. Porque não é todo dia que você vê um boitatá subindo por um prédio de São Paulo.

Abaixo, o (sensacional) booktrailer do livro. Confiram:


Posted on sábado, outubro 06, 2012 by Lucas Rocha

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20 de setembro de 2012


Jim Anotsu está de volta, e isso já é motivo para comemorar. Derretendo corações juvenis com seu romance extremamente pop “Annabel e Sarah” em 2010, Jim volta para nos brindar com seu segundo romance, “A Morte é Legal” (Editora Draco, 320 pág). E, sabendo que seu primeiro livro havia sido muito bem criticado por todos, lá estava Jim com um pepino gigantesco em mãos: a crise da segunda criação. Como fazer o público continuar amando sua nova história ao mesmo tempo em que o próprio autor tenta se desafiar para criar um texto mais maduro e que dialogue com suas emoções sem que isso soe falso? Como dosar a mão entre referências, texto, pontos de vista diferentes e o tanto de coisa bacana que ele quis comprimir nas 320 páginas que duram o romance?

Posso dizer que Jim conseguiu o que todo autor do segundo romance almeja: ser melhor que seu primeiro livro.

Vamos à sinopse: a história principal gira sobre Andrew Webley, um garoto de 19 anos meio emo, aspirante a escritor e colecionador de cachecóis e música triste. Ele é secretamente apaixonado por Briony há três anos, mas não consegue se declarar. Até que, certo dia, andando pelas ruas da cidade de Dresbel, ele esbarra com Ive, uma menina de cabelos pretos com mechas verdes que possui uma coelha de estimação falante e mau humorada, e que por acaso é a filha da Morte. Ive lhe faz uma proposta que pode mudar para sempre a vida de Andrew: partir com ela em busca dos três nomes da criatura mais importante do universo, o que pode garantir a realização de qualquer desejo. Pensando no amor de Briony e em como pode ser correspondido pela primeira vez na vida – mesmo que à custa de um desejo – Andrew aceita o desafio e parte com Ive em aventuras por diversos mundos paralelos e mágicos.

Não temos apenas o desdobramento das aventuras de Andrew. Ao longo do livro, somos apresentados a mais dois pontos de vista que se desenvolvem paralelamente ao dele: o de Astrophel e Stella, outra dupla que também está atrás dos três nomes; e o de Amber, irmã mais nova de Andrew e apaixonada por hip hop. Um dos principais motivos que me fez curtir a história de Amber – que é completamente destituída de fantasia e prefere seguir por um caminho mais urbano – foi o fato de aprender enquanto lia. Acho esse fator de poder entender um universo distante de mim como o hip hop fundamental para querer me embrenhar cada vez mais no texto. Não só pela citação aos rappers e à sua história no hip hop (não que eu não me pegasse cantarolando Eminem ou Lady Souverign às vezes), mas por todo o contexto em que são feitos, pelas notas de rodapé com as explicações dos termos específicos e por toda a paixão de Amber que escorre pelas páginas.

O texto de Jim está muito mais maduro, e isso é visível a quem leu ‘Annabel e Sarah’. “A Morte é Legal” apresenta conflitos extremamente críveis e reais, que vão muito além dos problemas aventurescos de encontrar os três nomes. Temos na relação de Andrew e seu pai um panorama complexo que envolve autoritarismo por parte do pai e insatisfação por não ser aquilo que o pai espera por parte de Andrew; da saudade da mãe morta por uma doença com nome de jogador de beisebol aos olhares frios e dos discursos cada vez mais incisivos de “você tem que arrumar um emprego e parar de sonhar com coisas que não vão acontecer, Andrew”; os pensamentos de Andrew sobre amor, que são tão complexos quanto os que possui em relação ao pai, pensando no amor que sente por Briony e em como ele é frágil; os pensamentos de Amber, irmã dele, sobre ter menos reconhecimento que o irmão enquanto o irmão pensa não ter reconhecimento algum... Todos os personagens que transitam pelo romance tem sua construção psicológica muito bem guiada pelas mãos do autor. Todos possuem seus desejos, anseios e questões. Muito bacana conseguir fazer isso com tanta gente em um espaço relativamente pequeno para a quantidade de personagens.

Jim Anotsu continua com suas referências pop que o deixaram bastante conhecido, mas dessa vez consegue dosar a mão e fazer com que se tornassem mais orgânicas em relação ao romance. É impressionante a amplitude de referências musicais e literárias que ele consegue abarcar em seu romance. Nem todas são identificáveis (nem acho que devam ser) e outras são bastante nítidas. Outra opção que casou perfeitamente com o romance foi o estilo indireto de diálogos. Pode ser um detalhe mais técnico, mas tenho que pontuar que esse tipo de texto faz com que a ação seja mais fluida, sem a quebra de parágrafo e o início de um travessão para o diálogo. Colocar uma fala em um bloco de texto junto à descrição narrativa dá a sensação de movimento, de que as coisas ainda estão acontecendo enquanto os personagens ainda estão falando.

As ilustrações do livro são outro atrativo maravilhoso: comprei a versão em e-book (ainda não vi como ficou o livro físico), mas as ilustrações e a diagramação estão excelentes. Minha única ressalva vai para os problemas de revisão, com pequenos errinhos a cada duas ou três páginas que se tornam irritantes com o passar do tempo. Não é nada que prejudique a leitura ou altere o significado de alguma frase, mas acho que uma semana a mais no forno ou uma última leitura mais detalhada para pescar esses tipos de erros seriam muito bem vindos.

“A Morte é Legal” vem para confirmar a competência de Jim como autor e colocá-lo em alta conta dentro da literatura de fantasia atual. Consegue ser pop sem ser infantil; consegue ser romântico sem ser piegas e consegue o que todo autor quer: dosar muito bem estilo e diversão sem perder a mão para nenhum dos dois lados. Temos bombas de antiimaginação voando pelos ares ao mesmo tempo em que temos conversas internas sobre dor, perdas e sentimentos. O enredo é bastante inteligente e não subestima o leitor, as reviravoltas são bem pontuadas e tudo casa muito bem, flui muito bem. Um dos melhores romances que a Draco lançou nesse ano. Imperdível!

P.S.: juntamente com o lançamento do livro, o Jim lançou uma mixtape muito bacana. Se chama “The Dresbel Sounds” e pode ser ‘comprada’ pelo valor de um twitt. A música-tema, “Drowning and Doubt”, pode ser ouvida aqui embaixo. É pra colocar no repeat!


Posted on quinta-feira, setembro 20, 2012 by Lucas Rocha

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7 de setembro de 2012


Ler um bom livro nacional é sempre um prazer. Não é papo tropicalista nem bravata de identidade brasileira impressa na literatura. Não. Muito longe disso, é apenas um prazer maior que faz brotar aquele pequeno sorriso e nos faz pensar “sim, temos qualidade em meio a tantos livros medianos; sim, temos romancistas tão competentes quanto os gringos; e sim, fazemos literatura de entretenimento mostrando realmente quem somos como escritores e como pessoas”. Talvez o maior mérito de “Suicidas” (Benvirá, 488 p.), do escritor e amigo Raphael Montes, seja exatamente esse: o de ser um ótimo livro de entretenimento, que não se prontifica a explorar os meandros da natureza humana nem de montar um jogo narrativo complexo que se sobrepõe à história. Aqui, o principal é o enredo, e toda essa exploração de personagens e narração é consequência de uma boa história que precisa ser contada.

Vamos à história. Um ano após o suicídio coletivo de nove adolescentes de classe média alta do Rio de Janeiro – que aparentemente não possuíam nenhum problema maior do que pegar o metrô até a faculdade e se preocupar com o trabalho de Foucault pra entregar na próxima aula – a polícia, na figura da delegada Diana Guimarães, reúne as mães desses jovens para discutir o caso à luz de uma nova prova: um diário, escrito em tempo real por um dos jovens, que narra os acontecimentos sucedidos durante a fatídica noite em que as mortes aconteceram. Através dessa reunião carregada de tensão e a leitura desse diário, verdades inconvenientes e segredos serão revelados.

É uma sinopse promissora, e o livro cumpre muito bem o que promete. Temos três narrativas paralelas: as anotações cotidianas do jovem Alessandro, que almeja ser escritor e mantém um diário com os principais acontecimentos à sua volta; o diário em tempo real do adolescente, encontrado pela polícia no porão onde os adolescentes se mataram; e a gravação da reunião das mães dos adolescentes. Essa escolha, que alterna diversos tempos narrativos e parte para uma escrita não linear, possibilita que o livro vá revelando segredos aos poucos, instigando o leitor a continuar lendo para que entenda o que diabos aconteceu naquele porão e porque esses adolescentes resolveram se matar.

Montes é habilidoso com as palavras: elas parecem dosadas para revelar apenas o que querer dizer ao mesmo tempo em que deixam algumas pistas que podem auxiliar o leitor a montar o quebra-cabeça que pouco a pouco vai se delineando para explicar o acontecido. Os personagens são muito bem montados: conseguimos identificá-los mentalmente apenas pelo nome, e suas atitudes são muito mais relevantes do que suas breves descrições físicas. O autor prefere um texto carregado em diálogos e dá pouco espaço para descrições, salvo nas partes mais gráficas do texto, que acontecem principalmente na narrativa do diário em tempo real. Isso faz com que as mais de 400 páginas do romance passem quase despercebidos por quem lê. O livro é um baita de um pageturner, sem dúvidas.

Uma coisa que achei bem interessante no livro foi o de se desprender de pudores ao mostrar a vida desses adolescentes. São, como grande parte dos adolescentes de classe alta carioca, arrogantes, preconceituosos, meio estúpidos e superficiais com os problemas que cercam o mundo. São cheios daquele discurso de “Brasil, país das bananas” e “Subornar um policial fácil assim só no Brasil”, sem tentar se aprofundar muito nas questões que levam as coisas a serem como são – mesmo que quatro personagens estudem direito. Essa opção, no entanto, é bastante acertada: demonstra toda a empáfia dos personagens, que se acham superiores aos outros apenas por terem mais dinheiro e uma educação privilegiada. Os únicos que conseguem ter um equilíbrio maior nessas questões são Waléria (única não-rica do grupo) e o protagonista Alessandro, que tenta se desvencilhar da postura de ‘riquinho nariz em pé’ em grande parte da narrativa.

Não há muito o que falar do enredo sem acabar caindo em algum spoiler, mas se há uma qualidade que esse livro possui é o de ter sempre alguma coisa nova a apresentar para o leitor. Até que toda a história comece a se montar, são necessárias menos de trinta páginas; para pegar o leitor preso num vórtice narrativo, trinta e cinco. Logo, o livro te pega pelo pé e te obriga a virar a próxima página para mais explicações. Os capítulos das anotações cotidianas de Alessandro são, talvez, a parte mais tranquila da narrativa, mas é essencial para dar todo o panorama externo ao sótão onde ocorre a ‘brincadeira’ da roleta-russa e explicar a vida de cada um dos personagens que está lá dentro.

Outro fato importante é o de que o livro é narrado sob a ótica de um personagem. A escolha da narração em primeira pessoa cai como uma luva no texto: não raro nos pegamos odiando os personagens que Alessandro odeia e admirando os que ele admira. Ele é a câmera que guia nossos olhos ao longo da narrativa, e partilhar as memórias com ele nos faz compartilhar das emoções que ele sente. Se ele diz que Waléria é uma vaca arrogante, acreditamos nele; se diz que Otto é um mentiroso, também acreditamos e, quando alguma coisa abala Alessandro, nos abala também. Ver os personagens sob a ótica pessoal de um dos que participa da roleta-russa é essencial para que os mistérios desse livro sejam dissolvidos aos poucos para o leitor, que tem Alessandro como catalisador de sentimentos.

Falar do desfecho seria estragar o romance, portanto não o farei. Só tenho a dizer que a história possui um fim extremamente satisfatório a todo o mistério sustentado quase até os últimos capítulos, quando enfim revela, de uma forma muito bem pensada – não espere o vilão relevando todo o seu plano maligno antes de perder a arma e morrer no final – todas as explicações necessárias para fechar o caso. Há uma ou outra ponta solta, mas nada que prejudique o entendimento do romance e a sensação de que uma ótima história foi contada.

Raphael Montes estreia de forma extremamente competente nesse primeiro romance: visceral, intenso, gráfico e violento são alguns dos adjetivos que posso usar para qualificá-lo. É um livro que vai te obrigar a chegar ao fim e vai te dar um ótimo final para uma ótima história, que parece ter sido planejada nos mínimos detalhes para chegar até você, leitor. É sua obrigação não deixar de lê-lo.

Posted on sexta-feira, setembro 07, 2012 by Lucas Rocha

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