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2 de outubro de 2013

Durante a Bienal 2013, passei muito tempo no estande da Gutenberg. E observei, com olhares atentos, uma pilha de livros verdes que parecia evaporar a cada vez que era reposto pelo pessoal que trabalhava ali. Era um livro que me chamou atenção pela capa estrategicamente neutra (no sentido de: não é um livro “de menina” nem “de menino”) e pela sinopse: ‘mutantes + distopia + aventura’. Hm, premissa interessante, pensei. Peguei um livro da pilha, paguei e levei para a autora, que estava ali no estande, autografando.

Foi aí que percebi que, mesmo que o livro fosse ruim (o que não é, de forma alguma), valeria a pena tê-lo comprado apenas por ter conhecido a autora. Impossível não começar a falar sobre esse livro sem falar da idealizadora por trás das páginas, a mega carismática Bárbara Morais. Ela, muito comunicativa e toda empolgada com o lançamento do livro, é uma pessoa incrivelmente gente boa. Estava lá cheia de sorrisos e disposição para assinar quantos livros fossem necessários e tirar quantas fotos fossem possíveis, sem diminuir o sorriso do rosto mesmo com a demanda incrivelmente alta. Depois, é claro, comecei meu processo de stalker e passei a segui-la no twitter, a ler o blog dela e adicioná-la no facebook. Isso só reafirmou a primeira impressão que tive: a Bárbara é sensacional.

Isso posto, vamos ao livro: “A Ilha dos Dissidentes” (ou AIDD, se você estiver com preguiça de escrever tudo) se passa em uma sociedade alternativa onde a humanidade se divide entre seres humanos ‘normais’ e ‘anômalos’. Os anômalos são seres que nascem com mutações genéticas que conferem a eles poderes especiais, como super-força ou habilidade de respirar embaixo d’água. No livro, acompanhamos a história de Sybil Varuna, uma menina que descobre não ser igual aos outros humanos. Sybil é a única sobrevivente do naufrágio de um navio que a levava de Kali – província empobrecida que está no meio de uma zona em guerra entre a União e o Império – para o continente Pacífico, que abriga refugiados escolhidos pelo governo para se verem livres das bombas e do terror.

Resgatada do naufrágio, Sybil percebe que sua vida mudará completamente: sendo uma anômala, ela não poderá voltar para Kali, mas será enviada para Pandora, uma província feita para concentrar anômalos – identificáveis a partir de suas roupas amarelas. Para a protagonista – uma garota órfã de uma região empobrecida e imersa em guerra – a possibilidade de mudança se mostra extremamente satisfatória: de uma hora para outra, ela é adotada por uma família que está feliz em tê-la entre os seus, experimenta pela primeira vez uma quantidade absurda de comidas gostosas; e, também pela primeira vez, consegue se relacionar com amigos da sua idade e firmar amizades verdadeiras.

A princípio, eu tinha torcido o nariz pra esse sentido clean da cidade de Pandora: tudo parece muito fácil para Sybil e meu hábito de leitura sabe que quando a esmola é demais o mendigo desconfia. Mas, aos poucos, fui entendendo que nada do que está ali é gratuito: a verdade é que Sybil sofreu muito na vida e, pela primeira vez, está em um lugar onde não precisa se preocupar com dividir a comida entre almoço e jantar.

A primeira metade do livro se foca mais nesse cotidiano de Sybil e nas relações dela com os amigos, além de possíveis e prováveis interesses amorosos: nesse momento, o enredo se preocupa menos em desenvolver uma história de ação e mais a desenvolver os relacionamentos entre os personagens, o que pode parecer um pouco lento para alguns, mas que para mim funcionou bem.

Sobre os personagens coadjuvantes: são todos muito bem construídos. Destaques para Leon, o anômalo cego que se vira muito melhor do que qualquer outro com visão; Andrei, que disputa com Sybil o posto de melhor-anômalo-da-água; e Ava, uma She-Hulk baixinha e super-forte. Os coadjuvantes são numerosos, mas cada um tem seu momento dentro da narrativa e são perfeitamente cabíveis; não sobra ninguém ali, mesmo que algumas funções sejam mais importantes do que outras.

Outro parêntese é o acerto da Bárbara Morais para a diversidade de etnias e de sexualidades dentro do livro. Temos gente de toda cor e de toda a sexualidade – até mesmo o heterossexual que se veste de mulher para apresentar um programa de televisão –, tudo colocado de uma forma muito natural e acertada, sem forçar barras de inclusão e/ou levantar bandeiras. Uma opção extremamente bem feita que enriqueceu muito a narrativa.

Já na segunda parte da história – depois de um ponto de virada que coloca nossos personagens em uma situação inesperada –, a ação toma conta da narrativa. E ela é frenética, com perseguições, tiroteios, correrias, bombas explodindo e pessoas quase morrendo a todo o momento. Se você estiver achando a primeira parte um pouco morosa e está com preguiça de continuar, meu conselho é: CONTINUE! Se você, assim como eu, é fã de ação, não vai se arrepender ao terminar de ler o livro. As viradas finais são extremamente bem construídas e o último capítulo fecha o primeiro volume da trilogia com uma série de perguntas que serão respondidas (assim espero) nos próximos dois volumes.

“A Ilha dos Dissidentes” é uma aventura daquelas que não dá pra parar de ler. Se você é fã de X-Men ou de quadrinhos de super-heróis em geral, vai se sentir extremamente confortável com a escrita da Bárbara; se não é fã, vai gostar igualmente do livro. Então tire suas roupas amarelas do armário e junte-se aos anômalos!

Posted on quarta-feira, outubro 02, 2013 by Lucas Rocha

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16 de julho de 2013


Sonhar está entre as constantes da vida. Sem ideações filosóficas, sonhamos praticamente todos os dias, com paisagens surrealistas e monstros de três cabeças que precisamos enfrentar - e que nunca sabemos se vencemos ou não, uma vez que sempre acordamos antes do sonho ter seu desfecho cinematográfico. É partindo dessa premissa de sonhos que Natália Couto Azevedo constrói seu romance, "O Reino dos Sonhos: A Cidade de Cristal", primeiro de uma série ainda em andamento.

Conheci a Natália durante a FLIP 2013: tivemos a oportunidade de dividir a mesma casa e, por lá, fizemos um sarau durante uma das madrugadas. Natália leu o início de uma história na qual está trabalhando, e não pude deixar de ser fisgado pela narrativa dela: é comum desconfiarmos de livros de novos autores - "pouco tempo, muitos livros", blá blá blá -, mas a prosa dela me deixou convicto de que o livro seria no mínimo interessante. Ainda ao lado dela, acionei meu precário 3G e comprei a edição eletrônica na Amazon (uma pechincha e um ótimo negócio para mim, não sei se muito bom para ela, diga-se de passagem) e ainda preciso desenvolver uma tecnologia para que ela possa autografá-lo.

Foi então que, três dias após o fim da viagem, deitado no sofá da sala e tentando colocar as ideias no lugar para elaborar os primeiros passos do malfadado projeto de conclusão de curso, comecei a ler despretensiosamente. Pensei que fosse ler um ou dois capítulos e depois largar para lá, continuar com minhas leituras atuais e depois voltar ao livro em outra oportunidade. Só que, assim como a história que ela contou durante nosso sarau improvisado, me senti imediatamente fisgado pela narrativa de "O Reino dos Sonhos".

O plot da história é bem comum aos adeptos de romances young adults: a jovem Elorá, dezessete anos, estudante de primeiro ano de artes plásticas e desajustada social, está às voltas com sonhos bem estranhos, envolvendo um universo de florestas e seres com asas que contemplam a natureza; como forma de se expressar, pinta as imagens que vê em seus sonhos e tudo o que quer da vida é que sua orientadora a admire, que sua tia pare de reclamar e que o garoto por quem timidamente se apaixonou repare nela.

Natália Couto Azevedo foi muito feliz ao delinear sua protagonista: a voz dela é extremamente condizente com os dilemas de uma adolescente de primeiro ano de faculdade; senti, no entanto, alguns ecos excessivos de ensino fundamental e médio no relacionamento que ela tem com os amigos de corredor, adeptos ao bullying. Não sei se é algo que se encaixe apropriadamente na faculdade, onde tudo é dito de forma um tanto mais velada do que no colégio.

Mas, se por um lado ela peca com os personagens que não tem importância para o eixo narrativo, por outro ela acerta em cheio com os coadjuvantes: a escolha de poucos personagens para o número de páginas do livro coube na medida certa para que cada um fosse aprofundado devidamente. Gabriel e Leila, amigos de Elorá, são os que mais se destacam; mas também temos o irmão da protagonista, Felipe; a orientadora, Iris; a tia chata, Virgínia; e até sua gata de estimação, Lilás (ótimo nome para uma gata), todos muito bem articulados e com papéis muito bem definidos ao longo da história, que sempre está em constante movimento, apresentando novos conflitos, sejam eles de cunho pessoal ou que englobem a relação entre Elorá e o mundo dos sonhos.

Até mais ou menos metade da narrativa, estamos visualizando muito mais a Elorá humana do que a feérica: seus problemas afetivos e acadêmicos são o centro da narrativa. Na segunda metade, somos finalmente apresentados aos problemas que envolvem o mundo dos sonhos e os motivos que levam a protagonista a ter papel central naquela dimensão paralela. Para ser sincero, achei a segunda parte um tanto mais empolgante do que a primeira, mesmo que não descarte a importância dos dilemas pessoais de Elorá.

Um ponto que me deixou um pouco desconfortável foi a preparação de texto, principalmente o uso excessivo de vírgulas quando poderiam ser utilizados outros artifícios que dessem maior ritmo e fluidez ao texto, como ponto-e-vírgula ou mesmo pontos finais. Não vi erros gramaticais nem repetições de sentenças, não vi redundâncias ou problemas de acentuação. Natália escreve bem, com um vocabulário invejável a qualquer um que esteja publicando seu primeiro romance; acredito que, nesse caso, é um trabalho muito mais conjunto entre autor e revisor/preparador/copidesque do que individualmente do autor.

A capa não me agradou e isso é tudo o que digo sobre ela. Não posso comentar sobre a beleza do livro impresso porque li o e-book, mas achei as imagens - também disponíveis entre alguns capítulos do livro eletrônico - bem bonitas e condizentes com a história contada.

Natália optou pela escolha de um final completamente aberto, o que não me agrada completamente. Mesmo sabendo que se trata de uma série, gosto da sensação de arco fechado e de novas possibilidades para o futuro, ao invés de um final onde tudo fica em suspenso. Mas o que me deixou feliz foi o fato de que fiquei genuinamente curioso para saber o que acontece no segundo volume e estou esperando que ela termine de escrever para que possa ler o quanto antes.

Ler esse livro foi uma grata surpresa. Em primeiro lugar, porque não me considero público-alvo para ele, e ainda assim gostei bastante; e, em segundo, por se tratar do primeiro romance da autora, com um potencial gigantesco para se tornar uma ótima série. Natália Couto Azevedo soube condensar muito bem o fantástico com os sentimentos comuns a todos: da insegurança quanto a um trabalho onde tantas expectativas foram depositadas, do amor incipiente e a dúvida se ele é ou não correspondido, da confiança que nem sempre devemos ter àqueles que nos sorriem. Enfim, sobre a natureza humana, mesmo que com traços de fada.

Posted on terça-feira, julho 16, 2013 by Lucas Rocha

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13 de julho de 2013


Eu deveria estar escrevendo meu TCC, mas estou aqui para tirar as poeiras e as traças desse blog. Os hiatos estão cada vez maiores e as justificativas são muitas, mas não vou me estender muito nelas porque são todas aquelas que um aspirante a escritor e formando de penúltimo período de faculdade têm.

Semana passada, fui à FLIP pela primeira vez. Uma ótima experiência: gente boa dividindo casa comigo, sarau literário de madrugada, boa comida (fora a pizza, que os paulistas odiaram) e umas cachaças pra esquentar as madrugas frias de Paraty. Depois falo mais sobre isso. Ou não. Por enquanto, vou falar de um livro que ganhei por lá, li a toque de caixa – não por obrigação, mas por prazer – e que foi o grande responsável por me fazer parar o que estou fazendo na vida acadêmica para voltar a postar nesse blog. O livro “O evangelho segundo Hitler”, do paranaense Marcos Peres, vencedor do prêmio SESC na categoria de melhor romance do ano.

Lá estava eu, andando pelas pedras ingratas do chão de Paraty, quando o Raphael Montes (cuja resenha do livro pode ser vista aqui) me disse: ‘olha, hoje tem a entrega do prêmio SESC. Dá uma passada lá’. Eu já tinha ouvido falar alguma coisa sobre o prêmio SESC. Li o ‘Quiçá’, da Luisa Geisler (que ainda não resenhei) por conta do prêmio e sabia que, quem quer que fosse o vencedor, não seria um romance qualquer. Seria no mínimo uma história interessante, seja por forma ou conteúdo. Ou os dois.

Mas abreviando a história: caí no SESC meio sem querer, ganhei os livros – tanto o romance vencedor quanto o livro de contos estavam sendo distribuídos por moças simpáticas –, peguei autógrafos dos dois autores e o romance logo chamou minha atenção. Em primeiro lugar, pelo título (que, segundo Marcos Peres, não tem nenhuma relação com ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de Saramago) e também pela sinopse: segundo a história contada pela orelha do livro, Hitler teria elaborado a ideologia nazista a partir da leitura de Jorge Luis Borges. Essa ideia, por si só, já é incrível.

Então comecei a ler, curioso para saber o que me esperava. E não me arrependi nem por um segundo de ter colocado todas as minhas outras leituras em segundo plano e ter dado atenção ao Evangelho: logo de pronto, somos apresentados a Jorge Luis Borges – não o escritor, mas um homônimo –, aspirante a escritor que tem o estigma do mesmo nome de um importante escritor argentino e a certeza de que nunca será tão genial quanto o mestre bibliotecário. As coincidências são muitas: desde o nome à aparência física, passando pelos amores e pelas histórias contadas pelos dois Borges, há um jogo de espelhos onde o reflexo (que é nosso Borges-protagonista) sempre parece sublocado ao Borges-bibliotecário, como se fosse uma sombra, sempre encolhido atrás de sua figura principal.

Pois bem, essa confusão de nome acaba levando nosso Borges-protagonista a ser confundido com o Borges-bibliotecário. Interpelado por um grupo de alemães depois de uma série de desventuras amorosas, Borges-protagonista é tragado para o seio da Alemanha nazista, às rodas secretas e aos símbolos e fantasias megalomaníacas de Hitler, apoiadas por um grupo secreto sempre presente na história da humanidade.

Os ecos de Umberto Eco são latentes ao longo do romance. Mas, diferente do escritor italiano, Marcos Peres consegue dosar muito bem romance e didatismo, aventura e erudito; em nenhum momento me senti lendo um livro acadêmico – o que aconteceu nas ocasiões em que li o Eco e fiquei com vontade de pular umas vinte páginas de explicações que não fariam diferença no romance –, mas me senti lendo um desses romances policiais vertiginosos que não nos deixam ir embora. E tudo isso com um conteúdo extremamente bem construído. Não sei se Marcos Peres debruçou-se em uma pesquisa do zero com a vida e a obra de Jorge Luis Borges ou se é um desses fãs obsessivos que leu e analisou tudo sobre o autor. Nas duas opções, só consigo dizer parabéns pela ideia e pelas relações estabelecidas entre os contos de Borges e o nazismo.

A edição está muito bem feita, tanto capa como diagramação. Não achei nenhum erro de revisão escandaloso, nada que tenha ficado na minha memória como algo a ser comentado. Também não tenho nada a comentar quanto a defeitos narrativos: não consegui encontrar nada que mudaria na história que Marcos quis contar.

Para mim, uma das melhores leituras que fiz esse ano (senão a melhor). Achei muito boa a decisão do prêmio SESC de premiá-lo, mesmo que não seja um livro que trate de brasilidades, mas sim de Alemanha nazista e sociedades secretas. “Evangelho Segundo Hitler” é desses livros que divertem e ensinam, que te mostram uma teoria que a princípio não faz nenhum sentido, mas quando explicada te dá aquele sense of wonder de ‘é, até que isso realmente poderia ter acontecido’. E que te dá vontade de ler Jorge Luis Borges. Eu já peguei meu exemplar velhinho de ‘Ficções’ e dei uma relida. Vou pegar ‘O Aleph’ essa semana na biblioteca pública. E por aí vamos.

Marcos Peres, autor de "O Evangelho Segundo Hitler"

Posted on sábado, julho 13, 2013 by Lucas Rocha

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8 de janeiro de 2012




Vivemos na era da informação. Informação rápida, descartável, consumível por diferentes formatos e nos mais diferentes suportes, em um mundo que parece estar sempre prestes a nos soterrar com terabytes de arquivos úteis e inúteis. Mas onde estão os limites dessa sociedade tão ‘bem informada’? Será que somos racionais ao que consumimos, a como consumimos e ao porque consumimos tanta informação, necessitamos de tantos gadgets e precisamos estar sempre conectados aos nossos twitters, e-mails e facebooks? É dentro dessa premissa que nasceu a minissérie britânica “Black Mirror”.

Produzida pelo Channel 4 no país da rainha – talvez mais conhecido no Brasil por ser o canal responsável pelo documentário Beyond Citizen Kane, proibido por Itamar Franco em 1993 por fazer denúncias à Rede Globo de Televisão – e criada por Charlie Brooker, o título da série se justifica pelo próprio produtor como ‘uma metáfora para todos os espelhos negros que seguem nossa sociedade atual, na forma de tablets, telas de LCD e smartphones’. A série se desdobra em três episódios completamente independentes, onde elenco, produção e até mesmo época em que a história se ambiente é diferente. O fio condutor de toda a experiência é a abordagem dada à tecnologia, ponto-chave que me fez morrer de amores pela série e sim, me fez parar para pensar um pouco (o que é raro, sobretudo com séries de TV).

Talvez não seja exagero dizer que a minissérie está entre as melhores coisas que já vi na vida produzida para a TV. Intenso, envolvente e questionador são alguns dos adjetivos que posso utilizar para qualificar a minissérie, que não se preocupa em levantar bandeiras ou ser hipócrita nos temas em que aborda. Tudo que aparece na tela é mostrado de forma crua, mas é inevitável não nos pegarmos questionando o que está acontecendo ali e de que forma aquilo pode acontecer conosco em um futuro não muito distante – isso quando não acabamos por perceber que já está acontecendo.

O primeiro episódio – penso que propositalmente o mais chocante de todos, para chamar atenção e pegar a audiência pela gola da camisa – se passa em nossa realidade atual e começa com um telefonema para o primeiro-ministro britânico. Ao atender o telefonema, o homem descobre que a princesa Susannah, adorada por todos (uma analogia à Diana ou Kate Middleton?) foi sequestrada. No vídeo enviado com uma gravação da própria Susannah (upado direto para o Youtube por uma conta encriptada), o sequestrador tem uma única e bizarra exigência: às quatro da tarde daquele mesmo dia, o primeiro-ministro britânico deve se apresentar em rede nacional e lá se relacionar sexualmente com um porco (é, vocês leram certo). Do contrário, a princesa será assassinada.

Nesse primeiro episódio, intitulado “The National Anthem” – e alcunhado pelo Channel 4 como “uma parábola distorcida sobre a era Twitter” – é interessante notar como as formas de manipulação da mídia estão completamente perdidas. O primeiro-ministro não quer que a informação vaze, mas o vídeo exigindo o resgate foi postado diretamente no Youtube e, não importa o quanto deletem, outra conta sempre irá repostá-la e perpetuar o ciclo; outra exigência do governo é de que a televisão não fale nada sobre o assunto, mas o nome da princesa está nos Trending Topics mundiais e os blogs jornalísticos já estão enlouquecidos em busca de atualizações sobre o sequestro.

Outro ponto gerado pelo episódio é a catarse coletiva causada pela expectativa do primeiro-ministro aceitar ou não a exigência do sequestrador. Enquetes são feitas, piadas são perpetuadas e, em contraponto, sentimos toda a angústia do primeiro-ministro quando as alternativas vão se escasseando e o prazo vai chegando ao fim. Esse contraponto, de mostrar quem somos na frente de uma tela de computador para atingir uma pessoa específica versus como essa pessoa encara o que está sendo falado sobre ela talvez sirva para a gente pensar um pouco em como utilizamos uma ferramenta como o Twitter e como ela pode ser poderosa, seja para o bem ou para o mal.

Já o segundo episódio – intitulado “15 Million Merits” – é o mais longo e intenso de todos os três episódios. Ambientado em uma estação completamente claustrofóbica em um futuro não muito distante (teoricamente, uma vez que nada indica tempo ou local durante todo o capítulo), somos apresentados ao personagem Bingham Madsen, um dos muitos moradores da estação, que vive em função de pedalar na frente de uma tela de LCD para produzir energia elétrica através de sua bicicleta ergométrica. Na estação, obesos são lixeiros – por serem incapazes de pedalarem por muito tempo para produzir energia – e o ‘dinheiro’ para alimentação, compra de programas de TV e atualizações dos avatares é adquirido através do tempo de pedaladas.

Perturbado por imagens constantes de propagandas de conteúdo sexual nas paredes de LCD da instalação – propagandas que não podem ser ignoradas a menos que se pague para não assisti-las – e sem muito a fazer além de pedalar, Bing conhece Abi, uma garota que sonha em participar do programa “Hot Shots” – uma referência clara a programas de talentos como X-Factor e American Idol – e que, para participar, precisa de 15 milhões de méritos (nome da moeda adquirida pelas pedaladas) para a compra do passaporte que garante a participação no show.

Paro por aqui para não estragar mais nada que tenha a ver com o roteiro. Nesse episódio, a crítica é a mais pungente que pode existir: de propagandas que aparecem quando menos esperamos, passando por manipulação de nossos gostos e alienação – afinal, para que comprarmos tantos complementos para nossos avatares?, porque e para quem pedalamos?, o que diabos estamos fazendo aqui e porque não conhecemos nada além disso? –, isso sem contar com a crítica à inabilidade em se rebelar ou de tentar ir contra o sistema em que estamos presos. Nesse capítulo, senti uma grande semelhança com os clássicos “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, seja pela sensação de claustrofobia, pela ambientação clean do ‘está tudo bem e estamos fazendo um belo trabalho aqui’ ou pela própria alienação inerente aos personagens – sobretudo ao gordinho seboso que pedala ao lado de Bingham e parece bastante confortável com todo o sistema em que está inserido. Sem dúvida, o melhor dos três episódios.

O terceiro e último episódio – com o excelente título de “The Entire History of You” – se passa em um futuro não muito distante ou em uma realidade alternativa (mais uma vez, nada é explicitado, e essa sensação de incerteza e de não subestimar a inteligência do espectador é uma jogada de mestre), onde cada pessoa possui um aplicativo chamado “Grão”, que é implantado atrás da orelha e conectado ao cérebro. Através de um pequeno controle remoto, a pessoa consegue manipular esse grão – seja para si mesmo ou projetando a imagem em qualquer tela de LCD – e reviver suas memórias, repassar o que ouviu e viu e poder reavaliar as situações. Também há a possibilidade de apagar memórias inúteis ou que não sejam interessantes por um motivo qualquer. Uma forma de nunca esquecer os bons momentos, segundo a empresa anunciante do produto.

No capítulo, o ponto-chave é a obsessão do personagem Liam, um advogado que está na expectativa de conseguir um novo emprego, pela fidelidade de sua esposa Ffion. Talvez esse seja o episódio mais pessoal, que delega mais tempo às obsessões particulares do personagem e se firma no microcosmos do relacionamento entre os dois. O Grão aqui funciona como a comprovação última do passado, demostrando que não existe mais confiança entre os personagens. Liam passa uma madrugada bêbada indo e voltando em suas memórias, analisando a forma como Ffion se comporta quando está conversando com um ex-namorado e quando conversa com ele: a diferença nos gestos, no olhar, no sorriso... É notável a destruição gradativa que guia o personagem de Liam ao longo da história causada pelas idas e vindas em suas memórias através do grão, culminando em atitudes às vezes impensadas e injustificadas. Outro capítulo excepcional, que encerra a trilogia de forma bastante interessante.

Um parêntese antes da conclusão: os dois últimos episódios são a prova concreta de que a) criatividade não está morta e b) utilizar sci-fi para construir uma boa história não é questão de efeitos especiais multi-milionários nem de devaneios exagerados e focados em avanços tecnológicos. A grande sacada de qualquer boa história, seja ela real ou alternativa, com navezinhas ou trolls debaixo de pontes, é se focar em personagens e em como eles reagem às situações, sejam elas quais forem. É um erro acreditar que qualquer história se segure por uma boa ambientação ou por explosões e jogadas de câmera com cortes de 1,5s por tomada. “Black Mirror” é um ótimo exemplo de como a ficção científica pode ser utilizada sem apelos ou bandeiras, mostrando apenas uma boa história que, propositalmente, não define local ou tempo, uma vez que podem acontecer em qualquer lugar, de Bristol ao Rio de Janeiro.

“Black Mirror”, sem dúvida, está entre as grandes séries que vi desde que comecei com esse hábito. Curta, porém intensa, a série só peca por ser muito curta. Se continuasse com esse nível de atuação, ambientação e ótimas ideias, tenho certeza de que seria um sucesso de longa data. No mais, é uma vantagem para os preguiçosos uma série de três episódios, ainda mais quando eles são independentes entre si. Você não tem desculpa alguma para não assisti-la. Então vá atrás dela.

Agora.


Posted on domingo, janeiro 08, 2012 by Lucas Rocha

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