Mostrando postagens com marcador record. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador record. Mostrar todas as postagens

13 de julho de 2013


Eu deveria estar escrevendo meu TCC, mas estou aqui para tirar as poeiras e as traças desse blog. Os hiatos estão cada vez maiores e as justificativas são muitas, mas não vou me estender muito nelas porque são todas aquelas que um aspirante a escritor e formando de penúltimo período de faculdade têm.

Semana passada, fui à FLIP pela primeira vez. Uma ótima experiência: gente boa dividindo casa comigo, sarau literário de madrugada, boa comida (fora a pizza, que os paulistas odiaram) e umas cachaças pra esquentar as madrugas frias de Paraty. Depois falo mais sobre isso. Ou não. Por enquanto, vou falar de um livro que ganhei por lá, li a toque de caixa – não por obrigação, mas por prazer – e que foi o grande responsável por me fazer parar o que estou fazendo na vida acadêmica para voltar a postar nesse blog. O livro “O evangelho segundo Hitler”, do paranaense Marcos Peres, vencedor do prêmio SESC na categoria de melhor romance do ano.

Lá estava eu, andando pelas pedras ingratas do chão de Paraty, quando o Raphael Montes (cuja resenha do livro pode ser vista aqui) me disse: ‘olha, hoje tem a entrega do prêmio SESC. Dá uma passada lá’. Eu já tinha ouvido falar alguma coisa sobre o prêmio SESC. Li o ‘Quiçá’, da Luisa Geisler (que ainda não resenhei) por conta do prêmio e sabia que, quem quer que fosse o vencedor, não seria um romance qualquer. Seria no mínimo uma história interessante, seja por forma ou conteúdo. Ou os dois.

Mas abreviando a história: caí no SESC meio sem querer, ganhei os livros – tanto o romance vencedor quanto o livro de contos estavam sendo distribuídos por moças simpáticas –, peguei autógrafos dos dois autores e o romance logo chamou minha atenção. Em primeiro lugar, pelo título (que, segundo Marcos Peres, não tem nenhuma relação com ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de Saramago) e também pela sinopse: segundo a história contada pela orelha do livro, Hitler teria elaborado a ideologia nazista a partir da leitura de Jorge Luis Borges. Essa ideia, por si só, já é incrível.

Então comecei a ler, curioso para saber o que me esperava. E não me arrependi nem por um segundo de ter colocado todas as minhas outras leituras em segundo plano e ter dado atenção ao Evangelho: logo de pronto, somos apresentados a Jorge Luis Borges – não o escritor, mas um homônimo –, aspirante a escritor que tem o estigma do mesmo nome de um importante escritor argentino e a certeza de que nunca será tão genial quanto o mestre bibliotecário. As coincidências são muitas: desde o nome à aparência física, passando pelos amores e pelas histórias contadas pelos dois Borges, há um jogo de espelhos onde o reflexo (que é nosso Borges-protagonista) sempre parece sublocado ao Borges-bibliotecário, como se fosse uma sombra, sempre encolhido atrás de sua figura principal.

Pois bem, essa confusão de nome acaba levando nosso Borges-protagonista a ser confundido com o Borges-bibliotecário. Interpelado por um grupo de alemães depois de uma série de desventuras amorosas, Borges-protagonista é tragado para o seio da Alemanha nazista, às rodas secretas e aos símbolos e fantasias megalomaníacas de Hitler, apoiadas por um grupo secreto sempre presente na história da humanidade.

Os ecos de Umberto Eco são latentes ao longo do romance. Mas, diferente do escritor italiano, Marcos Peres consegue dosar muito bem romance e didatismo, aventura e erudito; em nenhum momento me senti lendo um livro acadêmico – o que aconteceu nas ocasiões em que li o Eco e fiquei com vontade de pular umas vinte páginas de explicações que não fariam diferença no romance –, mas me senti lendo um desses romances policiais vertiginosos que não nos deixam ir embora. E tudo isso com um conteúdo extremamente bem construído. Não sei se Marcos Peres debruçou-se em uma pesquisa do zero com a vida e a obra de Jorge Luis Borges ou se é um desses fãs obsessivos que leu e analisou tudo sobre o autor. Nas duas opções, só consigo dizer parabéns pela ideia e pelas relações estabelecidas entre os contos de Borges e o nazismo.

A edição está muito bem feita, tanto capa como diagramação. Não achei nenhum erro de revisão escandaloso, nada que tenha ficado na minha memória como algo a ser comentado. Também não tenho nada a comentar quanto a defeitos narrativos: não consegui encontrar nada que mudaria na história que Marcos quis contar.

Para mim, uma das melhores leituras que fiz esse ano (senão a melhor). Achei muito boa a decisão do prêmio SESC de premiá-lo, mesmo que não seja um livro que trate de brasilidades, mas sim de Alemanha nazista e sociedades secretas. “Evangelho Segundo Hitler” é desses livros que divertem e ensinam, que te mostram uma teoria que a princípio não faz nenhum sentido, mas quando explicada te dá aquele sense of wonder de ‘é, até que isso realmente poderia ter acontecido’. E que te dá vontade de ler Jorge Luis Borges. Eu já peguei meu exemplar velhinho de ‘Ficções’ e dei uma relida. Vou pegar ‘O Aleph’ essa semana na biblioteca pública. E por aí vamos.

Marcos Peres, autor de "O Evangelho Segundo Hitler"

Posted on sábado, julho 13, 2013 by Lucas Rocha

2 comments

6 de abril de 2011

Eu poderia começar essa resenha falando: ‘há momentos na vida de um homem onde tudo o que ele quer é esquecer um pouco o está acontecendo ao seu redor e se distrair’, ou então ‘o cansaço é uma arma contraproducente na vida literária de qualquer pessoa, sobretudo na de um leitor que se arrisca tanto entre clássicos e livros mais densos e acaba se esquecendo de que a leitura, às vezes, deve ser divertida’, mas não vou começar assim. Seria um contrassenso começar a resenha de um livro tão legal de um jeito tão chato como esse.

Devo confessar: tenho um preconceito com Young Adult. Talvez seja a síndrome Crepúsculo e seus derivados ainda piores (como conseguem?!), mocinhas desmioladas que se apaixonam perdidamente por príncipes encantado e sobrenaturais que podem ter quem quiserem, mas sempre sentem o mesmo tipo de atração por mulheres sem sal. Então não foi com bons olhos que olhei para o livro “Cidade dos Ossos” (Editora Galera, 462 págs), da autora Cassandra Clare. A capa brilhante com um homem de músculos pulsantes e sem camisa não foi um ponto positivo para mim; a sinopse (garota-descobre-mundo-oculto-e-se-apaixona-por-anjo) também não.

Tá bom, Lucas, então por que raios você leu esse livro?

Por dois motivos: recomendações positivas e a promoção de um tal site subaquático.

Vamos logo ao que interessa: a primeira coisa que você precisa saber sobre esse livro é que ele funciona – e talvez essa seja a grande diferença dele para o resto dos Young Adults que vejo por aí. Tudo bem, o livro tem tudo o que uma menininha de treze anos gostaria de ler: uma protagonista feminina, um triângulo amoroso, coadjuvantes com seus momentos interessantes, diálogos bem sacados e cheios de ironia. E, em contrapartida, também tem coisas que os meninos gostariam de ler: ação, ação, ação e... ação.

O livro não para um segundo. Já começa a 100Km/h, numa cena em que a protagonista, Clary, é apresentada aos leitores como uma menina de quinze anos que só quer se divertir em uma boate de gente estranha e esquisita ao lado de seu melhor amigo, Simon. Está tudo indo bem, com pessoas de seus cabelos azuis e fantasias excêntricas, até que Clary vê três figuras cobertas de tatuagens cometendo um assassinato. Ela grita, pede ajuda para o amigo e tenta entender o que está acontecendo mas, com muito espanto, descobre que apenas ela pode ver os assassinos tatuados.

A partir daí, as coisas ficam ainda mais aceleradas: demônios, espadas reluzentes, tatuagens que fornecem poderes e reviravoltas das mais diferentes intensidades e naturezas ditam o tom desse primeiro livro da série ‘Instrumentos Mortais’.

Os personagens de Cassandra Clare são extremamente humanos e reais – ao menos os protagonistas Clary e Simon são. Os dois são retratos da juventude sem frescuras ou idealismos excessivos: com alguns sonhos, um ou outro defeito e muita, mas muita ironia. O que mais me chamou atenção nesse livro, principalmente no que diz respeito aos diálogos, é que eles carregam uma dose extremamente bem-humorada de sarcasmo e ironia. Parece ser a válvula de escape mais fácil para o humor trágico, para fazer rir nas horas de desespero ou simplesmente para responder a uma pergunta idiota.

Já o mesmo não acontece com o protagonista-sonho-de-consumo-feminino, Jace. O personagem parece tão esforçado em ser um imbecil que soa quase caricatural, como se não tivesse a mínima paciência ou interesse pelos problemas daqueles que o rodeia. É claro que criar um personagem que dá patadas na protagonista e tem uma relação de amor/ódio é um dos recursos mais eficientes para gerar uma paixão instantânea, mas acho que Jace poderia ter sido um pouco mais explorado nessa questão: seus sentimentos são no mínimo desregulados e, logo ao fim, quando finalmente revela uma de suas maiores fraquezas, o modo como se comporta passa a ser contraditório. Para um BIG MEGA spoiler, passe o mouse sobre o parágrafo seguinte; senão, pule para o próximo.

Me refiro à parte em que Jace descobre que o vilão Victor Valentim é seu pai. Jace, até então o símbolo do desdém e da indiferença, mostra-se extremamente subserviente ao pai. Passa para o lado dele e acredita no discurso de Valentim com a mesma velocidade que eu acredito que dois e dois são quatro. Faltou, nessa parte crucial, um pouco de questionamento por parte do personagem.

Quanto à separação vilão/mocinhos desse primeiro volume, acho que a escolha de Clare por colocar toda a carga de vilania em apenas um personagem foi acertada. É maniqueísta? A princípio sim, mas, analisando bem, dá pra notar que essa é exatamente a intenção dela. Clare não quer personagens cinzas nem quer que você se compadeça do vilão e odeie o mocinho. Ela coloca cada peça exatamente onde deseja e, a partir disso, manipula-os da forma que acha mais interessante. Não é exatamente algo que eu goste ou aprove, mas funcionou bem no caso de ‘Cidade dos Ossos’.

Outra coisa que achei interessante sobre o livro é a história por trás da autora (sem trocadilhos infames sobre quem está atrás de quem, por favor): Cassandra Clare é uma nerd assumida, otaku daquelas com cara de quem frequentava eventos de anime com bandana de Naruto na cabeça e réplica de pokébola na mão. Além disso, a autora começou sua carreira literária escrevendo fanfics de Harry Potter. Acho interessante ver que alguém conseguiu crescer com as mesmas influências que grande parte da galera que nasceu no fim dos anos 80 e início dos 90 – mais ou menos como eu – e ainda assim conseguir ser bastante original (coisa que está faltando um pouco por aí, em geral). Ponto positivo para ela.

Cassandra Clare dosa cenas de uma forma que dificilmente se vê por aí nos livros do mesmo gênero: é explicativo quando deve ser, descritivo só quando estritamente necessário e narrativo na grande maioria das vezes, o que torna a leitura fluida e memorável. É daqueles livros que você abre em qualquer lugar – em um quarto silencioso ou em um ônibus lotado – e consegue entender perfeitamente o que está acontecendo, sem precisar esforçar muito sua mente para visualizar as cenas. Ótimo para quem quer se desligar um pouco do mundo ao seu redor e aproveitar um pouco um mundo completamente diferente. Um livro que recomendo, é claro.

Posted on quarta-feira, abril 06, 2011 by Lucas Rocha

1 comment

17 de janeiro de 2011


Feliz 2011, meus queridos leitores e amigos do peito. Passei um bom tempo afastado por pura preguiça e falta de tempo para colocar as ideias em ordem e fazer uma resenha coesa, mas estou de volta, dessa vez com um dos autores mais cultuados pelos amantes de romances históricos cheios de guerras, sangue, sexo e lutas por poder: Bernard Cornwell, autor de sagas grandiosas como ‘As Crônicas Saxônicas’ e ‘As Aventuras de Sharpe’.

Dono de um texto limpo e de um estilo que o firma como uma das referências no que diz respeito ao romance histórico, Bernard Cornwell se distancia um pouco de espadas, flechas e castelos em seu romance ‘O Condenado’. Ambientado em uma Inglaterra cinzenta do século XIX, a trama gira em torno do personagem Rider Sandman, um amante de críquete e antigo capitão do exército, que é convocado para investigar as circunstâncias do assassinato de uma condessa por um pintor efeminado. Ele precisa descobrir se o homem (ou ‘a fada’, forma como o suposto assassino é retratado por boa parte dos personagens) realmente estuprou a condessa e depois a matou.

Esse foi o primeiro livro de Bernard Cornwell que li, mas já sabia que ele era uma exceção: eu não veria batalhas épicas nem sangue espirrando páginas afora, mas sim uma trama policial bem amarrada – quem sabe até mesmo requintada – que se ambientava em um cenário diferente do medievalismo de boa parte dos romances do autor britânico. Esse foi um dos fatores que me empolgou a ler o livro: logo de primeira, iria dar de cara com uma faceta pouco conhecida de Cornwell e leria um de seus livros mais diferentes. Não me pareceu um mau negócio.

O começo do livro é empolgante, não há como negar isso. A primeira sequência, que descreve minuciosamente o processo de enforcamento de um personagem que não possui importância nenhuma a trama, é um prólogo apropriadíssimo: sentimos o cheiro pútrido dos porões, nos afligimos pelas súplicas de uma mulher que jura ser inocente e nos enraivecemos pela atitude de descaso e até mesmo divertimento da plebe, que mesmo tendo tão pouco consegue tripudiar de quem tem ainda menos. Tudo muito bonitinho, certinho e amarradinho. Mas então o livro começa.

Não é um livro difícil de ler. Cornwell tem uma escrita leve e fluida, com pouco uso de adjetivos e poucas descrições. Conseguimos nos transportar para a Inglaterra do século XIX sem nos preocupar muito com o cenário, mas sim com a história. Já falei em outro post que gosto quando a história é maior do que a História, então não irei me demorar muito nesse ponto. Vamos a Rider Sandman.

Capitão aposentado depois da Batalha de Waterloo, a construção de Sandman pareceu a mim a joia rara da Inglaterra, o homem bom, justo, incorruptível e sincero, o bonzinho da novela das seis que está lá para defender os fracos e oprimidos para ter como retribuição apenas o sorriso amarelado e a satisfação de ter feito o que é certo. Muito preto no branco, na minha humilde opinião. Sandman destoa de um cenário cheio de escalas de cinza e de personagens que poderiam ter tudo para ser cínicos e fazer escolhas que poderiam beneficiá-los. Ele é bom por ser bom, indefectível porque acredita na justiça. Mesmo com a justificativa dada no livro – o pai dele era um devedor e Sandman não queria continuar com aquela imagem estigmatizada – acho que o personagem poderia ser um pouco mais... humano.

Já em contraponto, temos Sally Hood (o sobrenome não é coincidência. Ela É irmã de Robin Hood – sim, no século XIX), uma garota que se vira como pode para ganhar o seu dinheiro da forma que acha mais digna – como, por exemplo, posar nua para servir de modelo de peitos para os pintores das condessas – e que é, para mim, a diversão de todo o livro. Boca suja, cheia de opiniões particulares e algumas vezes hilárias, ela também cai naquele estereótipo de ‘mulher que não está nem aí pra sociedade inglesa conservadora’, mas consegue se sair melhor do que Sandman. Ponto positivo.

A trama em si não traz muita empolgação: os personagens secundários – suspeitos do assassinato da condessa – são construídos de forma bastante rápida e insípida. Não consegui sentir simpatia por nenhum deles e achei a justificativa do assassino, ao final da história, a saída mais simples e fácil de ser executada. Quando enfim descobri o que aconteceu, simplesmente virei a página e continuei lendo, sem me emocionar nem um bocadinho.

[OK, SE VOCÊ NÃO QUER OUVIR SPOILERS, PULE PARA O FIM DO TEXTO]

O fim do livro é de prender o fôlego. Falo do finzinho mesmo, daquela parte em que já descobrimos quem é o assassino, mas Sandman ainda tem que correr para libertar o pintor-fada e acusar apropriadamente quem deve ser enforcado no lugar dele. É aquele clima de ‘vambora, Sandman! Cooooorre’ que me empolgou bastante. Ele está a um zilhão de quilômetros de distância e não dá conta de chegar com o cavalo a tempo. O texto vai e volta entre a corrida de Sandman e o pintor sendo executado. O cadafalso abre e o pintor começa a se enforcar, pouco a pouco perdendo a vida.

Parece que NÃO VAI dar tempo, que o livro vai acabar com o cara errado sendo enforcado – não seria um mau final –, mas eis que uma das cenas mais diarreia mental que eu já vi na minha vida tem início: o ROBIN HOOD aparece para salvar o dia. Vem entre a plebe correndo enquanto Sandman tenta abrir caminho para entregar a confissão de uma testemunha ao juiz, e simplesmente corta a corda que prende o pescoço do pintor e salva o dia.

Ok, eu já aturei a liberdade poética de usar o Robin Hood no século XIX, mas agora querer que eu aceite esse Deus ex machina cagado? É abusar demais da inteligência do leitor, tio Cornwell!

[/PRONTO, JÁ ROLOU O DESABAFO, PODEM LER A PARTIR DAQUI]

O que fica de ‘O Condenado’ é um gostinho de que o livro poderia ter sido mais bem executado. Os personagens poderiam ter sido mais bem explorados e cativar um pouco mais o leitor, sobretudo os secundários. Alguma motivação poderia ser dada para Sandman [MAIS UM SPOILERZINHO] pô, o cara recusa um suborno de sei lá quantas mil libras que podem acabar com todos os problemas dele a troco da justiça às últimas consequências [/ACABOU O SPOILERZINHO] e a trama podia ter um final um pouco mais inteligente.

É isso aí, espero que tenham gostado. Até a próxima. E comentem :)

Posted on segunda-feira, janeiro 17, 2011 by Lucas Rocha

2 comments