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16 de julho de 2013


Sonhar está entre as constantes da vida. Sem ideações filosóficas, sonhamos praticamente todos os dias, com paisagens surrealistas e monstros de três cabeças que precisamos enfrentar - e que nunca sabemos se vencemos ou não, uma vez que sempre acordamos antes do sonho ter seu desfecho cinematográfico. É partindo dessa premissa de sonhos que Natália Couto Azevedo constrói seu romance, "O Reino dos Sonhos: A Cidade de Cristal", primeiro de uma série ainda em andamento.

Conheci a Natália durante a FLIP 2013: tivemos a oportunidade de dividir a mesma casa e, por lá, fizemos um sarau durante uma das madrugadas. Natália leu o início de uma história na qual está trabalhando, e não pude deixar de ser fisgado pela narrativa dela: é comum desconfiarmos de livros de novos autores - "pouco tempo, muitos livros", blá blá blá -, mas a prosa dela me deixou convicto de que o livro seria no mínimo interessante. Ainda ao lado dela, acionei meu precário 3G e comprei a edição eletrônica na Amazon (uma pechincha e um ótimo negócio para mim, não sei se muito bom para ela, diga-se de passagem) e ainda preciso desenvolver uma tecnologia para que ela possa autografá-lo.

Foi então que, três dias após o fim da viagem, deitado no sofá da sala e tentando colocar as ideias no lugar para elaborar os primeiros passos do malfadado projeto de conclusão de curso, comecei a ler despretensiosamente. Pensei que fosse ler um ou dois capítulos e depois largar para lá, continuar com minhas leituras atuais e depois voltar ao livro em outra oportunidade. Só que, assim como a história que ela contou durante nosso sarau improvisado, me senti imediatamente fisgado pela narrativa de "O Reino dos Sonhos".

O plot da história é bem comum aos adeptos de romances young adults: a jovem Elorá, dezessete anos, estudante de primeiro ano de artes plásticas e desajustada social, está às voltas com sonhos bem estranhos, envolvendo um universo de florestas e seres com asas que contemplam a natureza; como forma de se expressar, pinta as imagens que vê em seus sonhos e tudo o que quer da vida é que sua orientadora a admire, que sua tia pare de reclamar e que o garoto por quem timidamente se apaixonou repare nela.

Natália Couto Azevedo foi muito feliz ao delinear sua protagonista: a voz dela é extremamente condizente com os dilemas de uma adolescente de primeiro ano de faculdade; senti, no entanto, alguns ecos excessivos de ensino fundamental e médio no relacionamento que ela tem com os amigos de corredor, adeptos ao bullying. Não sei se é algo que se encaixe apropriadamente na faculdade, onde tudo é dito de forma um tanto mais velada do que no colégio.

Mas, se por um lado ela peca com os personagens que não tem importância para o eixo narrativo, por outro ela acerta em cheio com os coadjuvantes: a escolha de poucos personagens para o número de páginas do livro coube na medida certa para que cada um fosse aprofundado devidamente. Gabriel e Leila, amigos de Elorá, são os que mais se destacam; mas também temos o irmão da protagonista, Felipe; a orientadora, Iris; a tia chata, Virgínia; e até sua gata de estimação, Lilás (ótimo nome para uma gata), todos muito bem articulados e com papéis muito bem definidos ao longo da história, que sempre está em constante movimento, apresentando novos conflitos, sejam eles de cunho pessoal ou que englobem a relação entre Elorá e o mundo dos sonhos.

Até mais ou menos metade da narrativa, estamos visualizando muito mais a Elorá humana do que a feérica: seus problemas afetivos e acadêmicos são o centro da narrativa. Na segunda metade, somos finalmente apresentados aos problemas que envolvem o mundo dos sonhos e os motivos que levam a protagonista a ter papel central naquela dimensão paralela. Para ser sincero, achei a segunda parte um tanto mais empolgante do que a primeira, mesmo que não descarte a importância dos dilemas pessoais de Elorá.

Um ponto que me deixou um pouco desconfortável foi a preparação de texto, principalmente o uso excessivo de vírgulas quando poderiam ser utilizados outros artifícios que dessem maior ritmo e fluidez ao texto, como ponto-e-vírgula ou mesmo pontos finais. Não vi erros gramaticais nem repetições de sentenças, não vi redundâncias ou problemas de acentuação. Natália escreve bem, com um vocabulário invejável a qualquer um que esteja publicando seu primeiro romance; acredito que, nesse caso, é um trabalho muito mais conjunto entre autor e revisor/preparador/copidesque do que individualmente do autor.

A capa não me agradou e isso é tudo o que digo sobre ela. Não posso comentar sobre a beleza do livro impresso porque li o e-book, mas achei as imagens - também disponíveis entre alguns capítulos do livro eletrônico - bem bonitas e condizentes com a história contada.

Natália optou pela escolha de um final completamente aberto, o que não me agrada completamente. Mesmo sabendo que se trata de uma série, gosto da sensação de arco fechado e de novas possibilidades para o futuro, ao invés de um final onde tudo fica em suspenso. Mas o que me deixou feliz foi o fato de que fiquei genuinamente curioso para saber o que acontece no segundo volume e estou esperando que ela termine de escrever para que possa ler o quanto antes.

Ler esse livro foi uma grata surpresa. Em primeiro lugar, porque não me considero público-alvo para ele, e ainda assim gostei bastante; e, em segundo, por se tratar do primeiro romance da autora, com um potencial gigantesco para se tornar uma ótima série. Natália Couto Azevedo soube condensar muito bem o fantástico com os sentimentos comuns a todos: da insegurança quanto a um trabalho onde tantas expectativas foram depositadas, do amor incipiente e a dúvida se ele é ou não correspondido, da confiança que nem sempre devemos ter àqueles que nos sorriem. Enfim, sobre a natureza humana, mesmo que com traços de fada.

Posted on terça-feira, julho 16, 2013 by Lucas Rocha

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20 de setembro de 2012


Jim Anotsu está de volta, e isso já é motivo para comemorar. Derretendo corações juvenis com seu romance extremamente pop “Annabel e Sarah” em 2010, Jim volta para nos brindar com seu segundo romance, “A Morte é Legal” (Editora Draco, 320 pág). E, sabendo que seu primeiro livro havia sido muito bem criticado por todos, lá estava Jim com um pepino gigantesco em mãos: a crise da segunda criação. Como fazer o público continuar amando sua nova história ao mesmo tempo em que o próprio autor tenta se desafiar para criar um texto mais maduro e que dialogue com suas emoções sem que isso soe falso? Como dosar a mão entre referências, texto, pontos de vista diferentes e o tanto de coisa bacana que ele quis comprimir nas 320 páginas que duram o romance?

Posso dizer que Jim conseguiu o que todo autor do segundo romance almeja: ser melhor que seu primeiro livro.

Vamos à sinopse: a história principal gira sobre Andrew Webley, um garoto de 19 anos meio emo, aspirante a escritor e colecionador de cachecóis e música triste. Ele é secretamente apaixonado por Briony há três anos, mas não consegue se declarar. Até que, certo dia, andando pelas ruas da cidade de Dresbel, ele esbarra com Ive, uma menina de cabelos pretos com mechas verdes que possui uma coelha de estimação falante e mau humorada, e que por acaso é a filha da Morte. Ive lhe faz uma proposta que pode mudar para sempre a vida de Andrew: partir com ela em busca dos três nomes da criatura mais importante do universo, o que pode garantir a realização de qualquer desejo. Pensando no amor de Briony e em como pode ser correspondido pela primeira vez na vida – mesmo que à custa de um desejo – Andrew aceita o desafio e parte com Ive em aventuras por diversos mundos paralelos e mágicos.

Não temos apenas o desdobramento das aventuras de Andrew. Ao longo do livro, somos apresentados a mais dois pontos de vista que se desenvolvem paralelamente ao dele: o de Astrophel e Stella, outra dupla que também está atrás dos três nomes; e o de Amber, irmã mais nova de Andrew e apaixonada por hip hop. Um dos principais motivos que me fez curtir a história de Amber – que é completamente destituída de fantasia e prefere seguir por um caminho mais urbano – foi o fato de aprender enquanto lia. Acho esse fator de poder entender um universo distante de mim como o hip hop fundamental para querer me embrenhar cada vez mais no texto. Não só pela citação aos rappers e à sua história no hip hop (não que eu não me pegasse cantarolando Eminem ou Lady Souverign às vezes), mas por todo o contexto em que são feitos, pelas notas de rodapé com as explicações dos termos específicos e por toda a paixão de Amber que escorre pelas páginas.

O texto de Jim está muito mais maduro, e isso é visível a quem leu ‘Annabel e Sarah’. “A Morte é Legal” apresenta conflitos extremamente críveis e reais, que vão muito além dos problemas aventurescos de encontrar os três nomes. Temos na relação de Andrew e seu pai um panorama complexo que envolve autoritarismo por parte do pai e insatisfação por não ser aquilo que o pai espera por parte de Andrew; da saudade da mãe morta por uma doença com nome de jogador de beisebol aos olhares frios e dos discursos cada vez mais incisivos de “você tem que arrumar um emprego e parar de sonhar com coisas que não vão acontecer, Andrew”; os pensamentos de Andrew sobre amor, que são tão complexos quanto os que possui em relação ao pai, pensando no amor que sente por Briony e em como ele é frágil; os pensamentos de Amber, irmã dele, sobre ter menos reconhecimento que o irmão enquanto o irmão pensa não ter reconhecimento algum... Todos os personagens que transitam pelo romance tem sua construção psicológica muito bem guiada pelas mãos do autor. Todos possuem seus desejos, anseios e questões. Muito bacana conseguir fazer isso com tanta gente em um espaço relativamente pequeno para a quantidade de personagens.

Jim Anotsu continua com suas referências pop que o deixaram bastante conhecido, mas dessa vez consegue dosar a mão e fazer com que se tornassem mais orgânicas em relação ao romance. É impressionante a amplitude de referências musicais e literárias que ele consegue abarcar em seu romance. Nem todas são identificáveis (nem acho que devam ser) e outras são bastante nítidas. Outra opção que casou perfeitamente com o romance foi o estilo indireto de diálogos. Pode ser um detalhe mais técnico, mas tenho que pontuar que esse tipo de texto faz com que a ação seja mais fluida, sem a quebra de parágrafo e o início de um travessão para o diálogo. Colocar uma fala em um bloco de texto junto à descrição narrativa dá a sensação de movimento, de que as coisas ainda estão acontecendo enquanto os personagens ainda estão falando.

As ilustrações do livro são outro atrativo maravilhoso: comprei a versão em e-book (ainda não vi como ficou o livro físico), mas as ilustrações e a diagramação estão excelentes. Minha única ressalva vai para os problemas de revisão, com pequenos errinhos a cada duas ou três páginas que se tornam irritantes com o passar do tempo. Não é nada que prejudique a leitura ou altere o significado de alguma frase, mas acho que uma semana a mais no forno ou uma última leitura mais detalhada para pescar esses tipos de erros seriam muito bem vindos.

“A Morte é Legal” vem para confirmar a competência de Jim como autor e colocá-lo em alta conta dentro da literatura de fantasia atual. Consegue ser pop sem ser infantil; consegue ser romântico sem ser piegas e consegue o que todo autor quer: dosar muito bem estilo e diversão sem perder a mão para nenhum dos dois lados. Temos bombas de antiimaginação voando pelos ares ao mesmo tempo em que temos conversas internas sobre dor, perdas e sentimentos. O enredo é bastante inteligente e não subestima o leitor, as reviravoltas são bem pontuadas e tudo casa muito bem, flui muito bem. Um dos melhores romances que a Draco lançou nesse ano. Imperdível!

P.S.: juntamente com o lançamento do livro, o Jim lançou uma mixtape muito bacana. Se chama “The Dresbel Sounds” e pode ser ‘comprada’ pelo valor de um twitt. A música-tema, “Drowning and Doubt”, pode ser ouvida aqui embaixo. É pra colocar no repeat!


Posted on quinta-feira, setembro 20, 2012 by Lucas Rocha

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