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11 de outubro de 2012

Ler clássicos sempre é um desafio a ser superado. Não pela linguagem, pelo estilo ou pelos anacronismos que certamente permeiam, sobretudo, a ficção científica; mas pela oportunidade de tentar compreender como determinada obra se tornou um cânone e de que forma isso influenciou ou influencia as gerações descendentes dela. Comprei um livro do Harold Bloom que discute a invenção do cânone e como ele é determinado – para Bloom, cânone são “os livros escolhidos pelas nossas instituições de ensino” (e eu o vejo falando isso com a maior troll face do universo). É claro que isso é uma piadinha academicista; o cânone, para mim, é tudo aquilo que possui força suficiente para influenciar ou determinar estilos de trabalhos futuros. Nesse sentido, Philip K. Dick se destaca por ser um dos mais canônicos escritores de ficção científica que já andou entre meros mortais.

Quem já viu “Blade Runner – O Caçador de Androides” deve ter alguma noção sobre o tema central desse livro, que originou o filme. Mas não pensem vocês que o filme é a representação fiel do livro, porque nesse caso a palavra ‘adaptação’ tem todo o seu peso. O filme mostra apenas uma parte da trama e, por mais bonito e filosófico que seja, não está nem um pouco próximo de todas as questões que perpassam a vida do protagonista Deckard no livro.

Àqueles que não sabem do que se trata essa história, uma breve sinopse: na história, acompanhamos a aventura de Rick Deckard, um caçador de recompensas vivendo em uma San Francisco pós-apocalíptica de 1992, onde a maior parte da população partiu para Marte e a Terra não passa de um lugar inóspito, carregado de partículas nucleares e prédios abandonados. Deckard assume o caso de Dave Holden: caçar seis androides Nexus-6 que estão se passando por humanos na Terra. Os ecos do pessimismo da Guerra Fria são mais presentes do que nunca no romance, e o fator contexto histórico deve ser bem observado pelos mais novos: guerra nuclear, corrida espacial e colonização de Marte, carros voadores... tudo nessa ficção científica ecoa aos anos sessenta.

Em paralelo, temos a história de John Isidore, um homem que permaneceu na Terra por não ter demonstrado possuir QI suficiente para viajar até Marte. Conhecido por ser um chickenhead (alguma coisa como ‘cabeça de vento’ em uma tradução bem porca e apressada), Isidore vive em um prédio abandonado, onde acha que está sozinho até ser interceptado por uma mulher atraente, a qual ele, diferente do leitor, demora para perceber que é um androide (e se você acha que isso é spoiler... bem, acho que você é tão chickenhead quanto ele).

Muitas questões são levantadas durante o livro: religião, alienação, status social e, majoritariamente, a humanidade dos personagens. A sacada de K. Dick é genial. Os Nexus-6 são criaturas desenvolvidas não como robôs – com fios, painéis de controle e aço inoxidável –, mas sim como criaturas orgânicas que possuem memórias implantadas para acharem que são realmente humanos. Onde começa e termina a humanidade de cada um? O que define quem são os humanos e os androides, quando tudo o que os diferencia é o tempo de vida reduzido das criaturas sintéticas? Não há respostas no livro: Deckard, por ser os olhos do leitor, passa por um processo de desconstrução que começa com ele dando pouco valor aos androides e se desenvolve com questões que o colocam em cheque, e o relacionamento dele com os androides vai pouco a pouco saindo do campo do desprezo para o de se colocar no lugar deles e tentar entender o que eles sentem – porque, afinal de contas, eles sentem, não é?

A religião é um dos pontos centrais e mais explorados da narrativa. Com a guerra nuclear, praticamente todos os animais que viviam na Terra foram ou extintos ou reduzidos a um número próximo da extinção. Com isso, os poucos que sobraram passaram a ser comprados e idolatrados como parte integrante de uma nova religião, chamada Mercerismo. Quem não tem dinheiro para comprar um animal vivo, mas ainda quer manter as aparências, pode adquirir um elétrico por um precinho camarada e ninguém precisa saber. E o animal, agora parte de seu cotidiano, passa a ser a coisa mais importante que existe em sua vida. Deckard ama mais sua ovelha elétrica do que sua esposa, K. Dick diz em um momento do romance. O animal real, que um dos personagens adquire ao longo da trama, passa a ser idolatrado como hoje idolatramos uma nova tecnologia que não sabíamos que precisávamos. Essa crítica ao consumismo, à idolatria e ao poder do dinheiro, de fazer novos ídolos e elevá-lo ao status divino pelo preço que valem dialoga bastante com o que acontece hoje – com o que acontece desde sempre. Ponto para Dick.

Não sei se há algum ponto negativo que possa citar. Diferente de “O Homem do Castelo Alto” – ao qual tenho algumas ressalvas, não sei se por ter lido uma tradução mal-feita dos anos 90 ou se por não ter de fato gostado da história –, ‘electric sheep’ é um romance completo e sucinto. Suas 256 páginas passam rapidamente, com a dose certa de ação e contemplação. É uma história que todos – principalmente aqueles que curtiram o filme – devem ler.

Posted on quinta-feira, outubro 11, 2012 by Lucas Rocha

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7 de junho de 2012

Não tenho muito o hábito de ler livros de ficção científica. Talvez minha predileção por fantasia ou por livros de ficção mainstream sinalizem sempre que um livro de sci-fi está por perto e o neguem com veemência; no entanto, resolvi que precisava ler alguma coisa diferente. Fiz uma pesquisa rápida no twitter, procurei algumas sugestões e, de imediato, a Cris Lasaitis e a Alliah me sugeriram Arthur C. Clarke. “É viciante”, elas disseram. “Você vai pegar o livro e não vai querer mais largar. Leia ‘Encontro com Rama’, tenho certeza de que você não vai se arrepender”. Dei uma pesquisada e, mesmo com a sinalização anti-sci-fi a todo momento apitando dentro de mim, resolvi dar uma chance.

Encontro com Rama é o primeiro de uma série não-planejada de quatro livros (sem contar outros dois escritos por Gentry Lee que se ambientam no mundo de Rama), publicado por Arthur C. Clarke em 1972. Aos que não conhecem, Clarke é um dos cânones da ficção científica da segunda metade do século XX, ao lado de Isaac Asimov, Ray Bradbury, Stanislaw Lem, Poul Anderson, Frank Herbert e Robert A. Heinlein (pra citar os que eu lembro). Foi ele quem escreveu ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’ – esse mesmo, dirigido pelo titio Kubrick – e mais algumas dezenas de romances e centenas de contos.

A história de “Encontro com Rama” se passa no século XXII. Depois que um cataclismo meteórico atinge a Terra (em um 11 de setembro, só pra deixar registrado meu espanto ao ver a data), o governo decide criar uma guarda espacial especializada em analisar os movimentos cósmicos e monitorar possíveis ameaças que estejam circundando o Sistema Solar. Depois de muitos pequenos meteoros e grupos de asteroides, eles finalmente visualizam o que primeiro imaginam ser um gigantesco asteroide (batizado de 31/439 e, posteriormente, de Rama – na falta de entidades gregas, batizam o asteroide com o nome de uma das milhares de deidades indianas); ao monitorarem a aproximação cada vez mais veloz do objeto não-identificado, eles percebem que não se trata de um asteroide, mas sim de um corpo celeste de formato cilíndrico e oco, feito de um material diferente de tudo o que existe no planeta.

Qual é a suposição lógica? Exato, extraterrestres.

O livro possui duas narrativas paralelas: a primeira, mostra o ponto de vista do grupo de astronautas que vai de encontro à Rama; no segundo, do Conselho Rama que se estabelece na Terra com a presença de terrestres, mercurianos e lunares. Achei essa jogada do Asimov um pouco exagerada; não parece do feitio do livro ser uma space opera, e a presença de humanos colonizando um planeta que tem temperaturas médias de 600ºC me soaram um pouco Star Trek demais.

Na narrativa dos astronautas, somos apresentados à Rama como ela é por dentro. É difícil tentar imaginar um corpo celeste oco com formato cilíndrico de 20Km de diâmetro e 54Km de largura, ainda mais imaginar que dentro dele exista um clima próprio, sol, lua, chuva... mesmo que tudo pareça ter sido manufaturado e criado pelos extraterrestres, a perspectiva de pensar em algo tão gigantesco é difícil. E acredito que a jogada de Clarke é exatamente essa: fazer com que nos sintamos desconfortáveis com as descrições, que não consigamos entender muito bem como há circuitos de vento ou mares congelados dentro de Rama. É o mesmo questionamento dos astronautas: o que diabos é isso? Como foi criado, porque foi criado, porque está aqui? Essa sensação de desconforto foi o que mais me chamou a atenção durante todo o livro, mais do que as indisposições políticas do Conselho Rama ou os dramas pessoais dos astronautas.

Os dramas pessoais, a propósito – principalmente do Comandante Norton, pseudo-protagonista da história, com sua esposa terrestre e sua esposa mercuriana, dividido entre duas famílias que se conhecem mas não se gostam, e entre as descobertas que faz em Rama – são a parte menos empolgante da história. Por ser um livro curto (200p.), a dinâmica de tentar aprofundar os personagens ao mesmo tempo em que se tenta aprofundar as descobertas e a evolução da história de Rama soa forçada, como se Clarke tivesse sido obrigado a tornar os personagens mais profundos a fim de fazer com que nos importássemos com eles. Esse artifício, para mim, não foi importante. Continuaria me importando da mesma forma com cada um mesmo que não soubessem de seus dramas pessoais. Eles eram os descobridores de uma raça alienígena! Como não se sentir empolgado com essa simples perspectiva?

Tudo em Rama é estranho: desde as construções gigantescas e sem nenhuma ranhura, que parecem blocos de pedra lisa colocados sobre o chão, até a dinâmica de gravidade que se estabiliza no chão e se torna confortável aos humanos, passando pela limpeza cirúrgica do local e a aparente irrelevância que todo aquele complexo possui, Rama é um mistério: não se sabe para que serve nem como abri-la, ou como diabos entrar em contato com ela. Essa frustração crescente dos personagens e a incansável curiosidade que eles sentem em tentar saber o que fazer e como explorar aquele local também são dignos de nota.

No fim, temos um saldo bastante positivo: Encontro com Rama parece mais um relato do que aconteceria ao se proceder com um contato alienígena. Os puristas podem me crucificar, mas fiquei triste por não perceber nenhum fundo de moral nessa história. É apenas um ‘vamos lá ver o que existe dentro desse cilindro e depois vamos embora’. É claro que o livro discutiu um pouco preceitos religiosos (com um grupo que se assemelha aos cientólogos, acredito que não por coincidência) e fala sobre os tipos de dissidências políticas que podem ser causadas quando temos aliens na jogada, mas é só. A parte de aventura fica muito acima da parte das discussões e das problemáticas que uma civilização alienígena e provavelmente muito mais desenvolvida poderiam acarretar ao sistema solar. Não é um livro ambicioso, mas suas qualidades e a sua forma extremamente bem escritas não tiram o título de clássico que ele recebeu.

Posted on quinta-feira, junho 07, 2012 by Lucas Rocha

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30 de junho de 2009

O retrato social e natural dos mineiros franceses em um marco na literatura naturalista. É assim que posso começar a definir o genial "Germinal", de Émile Zola. O livro, lançado em 1885, mostra a vida e a miséria em meio a uma mina de extração de carvão. Lá, Etienne, recém-chegado, busca abrigo e emprego, e, com suas ideias revolucionárias e socialistas, tenta mobilizar os mineiros em busca de maior igualdade.

Mas Etienne não é o personagem principal do livro. Nem Chaval, Catherine ou Maheu. O personagem principal é a própria mina e as situações que a permeiam.

O livro é naturalista em sua essência. Conseguimos perceber, através da leitura, todos os pontos principais do movimento. A situação de pobreza e miséria parece não ter início e nem um fim: é uma situação constante e atemporal. No mesmo sentido, os personagens parecem conformados com sua situação de trabalho excessivo, fome e falta de espaço, como se isso fosse inevitável e inerente à sua natureza. Ali ninguém pensa em enriquecer ou em tentar um emprego melhor. Até porque a fome urgente e as obrigações no trabalho conseguem interromper qualquer linha de pensamento.

Mas deixarei de lado as definições naturalistas presentes no livro e passarei a narrativa propriamente dita. A escrita de Émile Zola é envolvente, e, mesmo que algumas vezes possa se tornar excessivamente descritiva, consegue transmitir com clareza suas propostas. Com as palavras, conseguimos sentir o sufoco das minas e das casas de um cômodo com catorze moradores; sentimos arrepio ao ver que eles não terão o que comer no dia seguinte, ou quando vemos que a mesma borra de café está sendo usada durante toda uma semana. Vemos, a todo momento, os traços de selvageria presentes na narrativa. Ali, o homem é como um animal (teoria Darwinista) e, como tal, suas ações eram produto de seus instintos.

"Estava feito; ele tinha matado. Confusamente voltavam-lhe à memória todas as suas lutas, esse combate inútil contra o veneno que dormia nos seus músculos, o álcool lentamente acumulado da família. E no entanto só estava ébrio de fome, mas o longínquo alcoolismo dos pais bastara para matar. Seus cabelos eriçavam-se com o horror daquele assassinato, e, apesar da revolta da sua educação, uma alegria fazia pulsar seu coração, a alegria animal de um apetite enfim satisfeito. Em seguida sentiu orgulho, o orgulho do mais forte. Surgiu-lhe uma visão, a do soldadinho apunhalado, morto por uma criança. Ele também havia matado."

- Germinal, trecho

Outta coisa que incomoda - no bom sentido da palavra - é o contraste social. Enquanto nas minas (onde a maioria do livro é ambientado) a situação é precária e urgente, na casa dos burgueses tudo anda as mil maravilhas. As mulheres usam vestes trabalhadas e caras, comem e desperdiçam, parecem bonecas de porcelana. As filhas do dono da mina, com 19 e 21 anos, parecem crianças na forma de falar e se comportar, enquanto que nas minas, as meninas, com 13 e 14 anos, já se submetem a trabalhos pesados e ao sexo desenfreado nas festas dos mineiros.

Germinal é um marco não só na literatura naturalista, mas sim na literatura mundial de um modo geral. Um genial retrato de um mundo permeado pelas desigualdades sociais e pelo conformismo.

Posted on terça-feira, junho 30, 2009 by Lucas Rocha

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