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20 de setembro de 2012


Jim Anotsu está de volta, e isso já é motivo para comemorar. Derretendo corações juvenis com seu romance extremamente pop “Annabel e Sarah” em 2010, Jim volta para nos brindar com seu segundo romance, “A Morte é Legal” (Editora Draco, 320 pág). E, sabendo que seu primeiro livro havia sido muito bem criticado por todos, lá estava Jim com um pepino gigantesco em mãos: a crise da segunda criação. Como fazer o público continuar amando sua nova história ao mesmo tempo em que o próprio autor tenta se desafiar para criar um texto mais maduro e que dialogue com suas emoções sem que isso soe falso? Como dosar a mão entre referências, texto, pontos de vista diferentes e o tanto de coisa bacana que ele quis comprimir nas 320 páginas que duram o romance?

Posso dizer que Jim conseguiu o que todo autor do segundo romance almeja: ser melhor que seu primeiro livro.

Vamos à sinopse: a história principal gira sobre Andrew Webley, um garoto de 19 anos meio emo, aspirante a escritor e colecionador de cachecóis e música triste. Ele é secretamente apaixonado por Briony há três anos, mas não consegue se declarar. Até que, certo dia, andando pelas ruas da cidade de Dresbel, ele esbarra com Ive, uma menina de cabelos pretos com mechas verdes que possui uma coelha de estimação falante e mau humorada, e que por acaso é a filha da Morte. Ive lhe faz uma proposta que pode mudar para sempre a vida de Andrew: partir com ela em busca dos três nomes da criatura mais importante do universo, o que pode garantir a realização de qualquer desejo. Pensando no amor de Briony e em como pode ser correspondido pela primeira vez na vida – mesmo que à custa de um desejo – Andrew aceita o desafio e parte com Ive em aventuras por diversos mundos paralelos e mágicos.

Não temos apenas o desdobramento das aventuras de Andrew. Ao longo do livro, somos apresentados a mais dois pontos de vista que se desenvolvem paralelamente ao dele: o de Astrophel e Stella, outra dupla que também está atrás dos três nomes; e o de Amber, irmã mais nova de Andrew e apaixonada por hip hop. Um dos principais motivos que me fez curtir a história de Amber – que é completamente destituída de fantasia e prefere seguir por um caminho mais urbano – foi o fato de aprender enquanto lia. Acho esse fator de poder entender um universo distante de mim como o hip hop fundamental para querer me embrenhar cada vez mais no texto. Não só pela citação aos rappers e à sua história no hip hop (não que eu não me pegasse cantarolando Eminem ou Lady Souverign às vezes), mas por todo o contexto em que são feitos, pelas notas de rodapé com as explicações dos termos específicos e por toda a paixão de Amber que escorre pelas páginas.

O texto de Jim está muito mais maduro, e isso é visível a quem leu ‘Annabel e Sarah’. “A Morte é Legal” apresenta conflitos extremamente críveis e reais, que vão muito além dos problemas aventurescos de encontrar os três nomes. Temos na relação de Andrew e seu pai um panorama complexo que envolve autoritarismo por parte do pai e insatisfação por não ser aquilo que o pai espera por parte de Andrew; da saudade da mãe morta por uma doença com nome de jogador de beisebol aos olhares frios e dos discursos cada vez mais incisivos de “você tem que arrumar um emprego e parar de sonhar com coisas que não vão acontecer, Andrew”; os pensamentos de Andrew sobre amor, que são tão complexos quanto os que possui em relação ao pai, pensando no amor que sente por Briony e em como ele é frágil; os pensamentos de Amber, irmã dele, sobre ter menos reconhecimento que o irmão enquanto o irmão pensa não ter reconhecimento algum... Todos os personagens que transitam pelo romance tem sua construção psicológica muito bem guiada pelas mãos do autor. Todos possuem seus desejos, anseios e questões. Muito bacana conseguir fazer isso com tanta gente em um espaço relativamente pequeno para a quantidade de personagens.

Jim Anotsu continua com suas referências pop que o deixaram bastante conhecido, mas dessa vez consegue dosar a mão e fazer com que se tornassem mais orgânicas em relação ao romance. É impressionante a amplitude de referências musicais e literárias que ele consegue abarcar em seu romance. Nem todas são identificáveis (nem acho que devam ser) e outras são bastante nítidas. Outra opção que casou perfeitamente com o romance foi o estilo indireto de diálogos. Pode ser um detalhe mais técnico, mas tenho que pontuar que esse tipo de texto faz com que a ação seja mais fluida, sem a quebra de parágrafo e o início de um travessão para o diálogo. Colocar uma fala em um bloco de texto junto à descrição narrativa dá a sensação de movimento, de que as coisas ainda estão acontecendo enquanto os personagens ainda estão falando.

As ilustrações do livro são outro atrativo maravilhoso: comprei a versão em e-book (ainda não vi como ficou o livro físico), mas as ilustrações e a diagramação estão excelentes. Minha única ressalva vai para os problemas de revisão, com pequenos errinhos a cada duas ou três páginas que se tornam irritantes com o passar do tempo. Não é nada que prejudique a leitura ou altere o significado de alguma frase, mas acho que uma semana a mais no forno ou uma última leitura mais detalhada para pescar esses tipos de erros seriam muito bem vindos.

“A Morte é Legal” vem para confirmar a competência de Jim como autor e colocá-lo em alta conta dentro da literatura de fantasia atual. Consegue ser pop sem ser infantil; consegue ser romântico sem ser piegas e consegue o que todo autor quer: dosar muito bem estilo e diversão sem perder a mão para nenhum dos dois lados. Temos bombas de antiimaginação voando pelos ares ao mesmo tempo em que temos conversas internas sobre dor, perdas e sentimentos. O enredo é bastante inteligente e não subestima o leitor, as reviravoltas são bem pontuadas e tudo casa muito bem, flui muito bem. Um dos melhores romances que a Draco lançou nesse ano. Imperdível!

P.S.: juntamente com o lançamento do livro, o Jim lançou uma mixtape muito bacana. Se chama “The Dresbel Sounds” e pode ser ‘comprada’ pelo valor de um twitt. A música-tema, “Drowning and Doubt”, pode ser ouvida aqui embaixo. É pra colocar no repeat!


Posted on quinta-feira, setembro 20, 2012 by Lucas Rocha

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23 de agosto de 2012


Em tempos de Nelson Rodrigues, nada melhor do que fazer uma resenha sobre um anjo pornográfico. Devo confessar que estou relapso com minhas resenhas – tenho mais lido do que escrito sobre o que li –, mas prometo pra qualquer deus em qualquer plano superior que tentarei melhorar meus (maus) hábitos. Já li “Gabriel” (Editora Draco, 304 págs) há coisa de um mês, e só agora bateu a vontade de escrever minha singela opinião sobre os escritos de Claudio Parreira.

Em primeiro lugar, tenho que destacar que esse é um daqueles livros que vai te tirar da sua zona de conforto. Não apenas por se tratar de uma releitura de personagens célebres na mitologia cristã e por balançar alguns alicerces da concepção religiosa de muita gente, mas por mostrar com pinceladas de realidade – mesmo que o texto tenha seu tom fantástico – a decadência da contemporaneidade e todo o jogo de cintura que os personagens tradicionalistas têm que ter para conseguir se adaptar ao tal do mundo moderno.

Mas vamos à sinopse: explicando em breves linhas, acompanhamos a história do anjo Gabriel, o mesmo que anunciou há uns dois mil e doze anos atrás a chegada de Jesus Cristo, que tem a missão de voltar a Terra e repetir a mesma história de antigamente, mesmo a contragosto. Para Gabriel, os planos antiquados do Superior de repetir a história não vão levar a nada, mas lá vai ele, munido de suas asas tortas e suas opiniões, de volta a Terra para anunciar à Maria – encarnada na forma de uma puta – que ela será a progenitora do novo Salvador.

Polêmica? Confusão? Livro demoníaco? Nada disso. Claudio Parreira faz muito bem em utilizar seus personagens apenas como personagens e não entrar em discussões religiosas profundas que abalarão as estruturas da fé humana. Prefere, ao invés disso, dar voz aos anseios de um anjo que se humaniza ao longo da narrativa e vai sentindo na pele todo o terror que é voltar a conviver com humanos. Essa opção do outsider cai como uma luva dentro da narrativa, porque consegue estruturar muito bem as etapas que vão de estranhamento à familiaridade e se transformam em insatisfação. A metamorfose de Gabriel (meio na marra), de anjo subserviente à homem questionador, é sem dúvidas uma das melhores características da narrativa.

O texto é limpo, os capítulos são curtos e se concentram em diálogos, sempre ácidos e bastante desprendidos de pudores. Gostei muito do clima cinzento e urbano da narrativa, que usa palavrões, brinca com arquétipos (como o homossexual afetado apaixonado por Marilyn Monroe, o poeta bêbado e o padre insatisfeito com o celibato) e, mesmo em um espaço tão pequeno quanto o da cidade onde a narrativa se passa, consegue criar um ambiente tão propício à exploração. A utilização do mapa que indica os principais pontos da diminuta cidade pode parecer um exagero à primeira vista (afinal, são só quatro ou cinco pontos estratégicos durante todo o romance), mas funciona perfeitamente quando vamos avançando na história e descobrindo que a cidade nem sempre é o que parece.

Outro ponto que vale a pena destacar é o da subversão de valores, da troca de papéis entre bom, mau e neutro e de como isso, ao longo da narrativa, vai se tornando cada vez mais interessante. Não há espaço para figuras apolíneas e renascentistas em “Gabriel”; ao invés disso, somos pegos por descrições sujas, decadentes, envoltas em nicotina e marcas de cicatrizes, com um passado borrado de batom vagabundo e cachaça barata. Os personagens são tão cinzas quanto a cidade em si e, apesar disso, ainda conseguem nos transmitir sensações boas como esperança e perseverança para enfrentar os problemas que são impostos pela vida.

Fiquei realmente satisfeito com a leitura de Gabriel. Ela passou rápido, entre engarrafamentos e noites insones. Para mim, pseudo-agnóstico e cem por cento sincrético, criado em uma família estritamente católica e com uma visão completamente catolicista do mundo (que inclui, paradoxalmente, um quê de intolerância e outro quê de amor ao próximo), o livro foi altamente divertido. Pude rir com todas as situações éticas impostas a Gabriel e à forma como ele lidava com elas, perdendo sua carapaça de anjo-bondoso-e-benevolente e agindo como qualquer um agiria: com humanidade.

Esse texto foi escrito sob distorções, gritos e psicodelias de “Violent Waves”, disco mais recente do Circa Survive. O disco foi produzido por crowdfunding e gravado em três dias; o arquivo de download foi disponibilizado gratuitamente pela banda (nada mais justo). A capa é uma das coisas mais lindas que vi nesse ano. O som, um dos melhores que ouvi.

Posted on quinta-feira, agosto 23, 2012 by Lucas Rocha

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17 de março de 2012

Ah, zumbis... essas criaturas putrefatas e gosmentas, que babam e gemem e esticam as mãos em busca de carne fresca que aprendemos a adorar. Ganharam espaço entre os monstros em alta no momento – muito do hype se deve à série ‘The Walking Dead’, é claro –, mas são criaturas que estão no imaginário popular há muito tempo, talvez até mesmo antes do “Noite dos Mortos-Vivos” do George Romero. Estão presentes no cinema, quadrinhos, seriados e literatura. E como é de literatura que esse blog majoritariamente trata, por que não falar um pouco deles com a roupagem cosmopolita e cinzenta de São Paulo?

Comprei “Terra Morta: Fuga” (Editora Draco, 248p. ou 1.679 kb), do escritor paulista Tiago Toy, no catálogo de e-books da Amazon, em uma ótima alternativa da editora de disponibilizar sua produção editorial na base virtual. É mais barato, rápido, leve e, sobretudo, prático. Pode não ter o fetiche do virar das páginas nem do cheiro do papel, mas no frigir dos ovos, também tem das suas sensações positivas ler em um kindle – olha eu, adorador de papel virando a casaca para o mercado editorial digital.
Mas enfim. Falemos do livro do Tiago e deixemos essas discussões fetichistas para outra oportunidade. Como já disse acima, o livro trata de zumbis. Conta a história de Tiago (suponho que seja um alterego do autor), um ex-praticante de parkour e trabalhador em todas as horas disponíveis do seu dia, que está inserido em uma cidadezinha do interior paulista completamente infestada de zumbis. O livro mostra como Tiago se vira para escapar dos perigos, sua relação com os personagens com os quais esbarra ao longo da narrativa e, como não poderia deixar de ser, os segredos que acaba por descobrir que possuem relação direta com a propagação do vírus zumbi.
Para tornar a resenha mais fácil, vou desmembrar o Tiago como se eu fosse um zumbi ávido por tripas. Acho que é mais divertido assim.
Miolos
Uma das partes que eu achei mais bem construídas no Tiago do livro é o seu senso de humanidade. Tudo nele parece muito bem dosado, desde a bondade até a – pouca, sim – crueldade e vontade de largar todos para trás e continuar seu trajeto sozinho. Por ser um personagem de início solitário, que se vira como pode escalando muros e pulando grades, o personagem parece, a princípio, se preocupar muito mais com o quão ferrado pode ficar se não arranjar água ou onde vai dormir sem que nenhum zumbi o ataque. Quando seu relacionamento com Daniela – outra personagem principal muito bem construída – começa a tornar-se uma parceria cada vez mais intensa, percebemos a evolução dele: de homem individualista que pensa em largar a garota para trás para homem que não vai deixar que ela se machuque, porque se importa com ele. Do ponto de vista psicológico, a evolução do personagem está de parabéns.
Olhos
Outro ponto-central e positivo no livro são as descrições, seja nos momentos de contemplação ou nos – muitos, diga-se de passagem – momentos de fuga. As cenas são carregadas de ação do início ao fim, com zumbis sempre no limite entre o pescoço dos protagonistas, fazendo com que eles tenham que se virar com um zilhão de artifícios – que incluem um arpão de pesca – para estourarem a cabeça dos mortos-vivos. E quando estouram, é sangue para tudo quanto é lado, como não poderia deixar de ser :)
Pernas
A opção de utilizar o parkour como peça-chave das fugas de Tiago é interessante. Além de divulgar um esporte – ainda – pouco conhecido no Brasil, serve para mostrar como ele é útil em uma infestação zumbi (que o mundo nerd parece ansiar desesperadamente, mas não se prepara com a prática de algum esporte :P). As notas explicativas sobre cada movimento que ele faz também funcionam muito bem.
Coração
Aqui tenho uma pequena ressalva: falta romance. Sim, pode parecer bobo ou coisa de menininha que curte romance de bancas de jornal, mas achei que a relação Tiago-Daniela – por ser solitária e ter muitos momentos que poderiam dar brechas para insinuações mais românticas – teria um futuro maior se levasse a paixão em consideração. Nem que fosse um impulso momentâneo de carência, um erro que os levasse a ficar juntos durante uma noite e não quererem comentar sobre isso no dia seguinte.
Outra alternativa – caso a relação dos dois não fosse realmente uma boa opção – fosse falar um pouco sobre o passado afetivo de cada um. Com relação a esse tema, o livro me pareceu ascético, não prático (risos). Tudo bem que o que crescesse entre os dois fosse apenas afeto ou amizade, mas eles não conversam em nenhum momento sobre seus relacionamentos passados, sua vida amorosa. Quem sabe seja uma boa opção para aprofundar mais os personagens no livro 2.
~ * ~
Personagem desmembrado e agonizante no meio-fio, voltemos à narrativa em si: achei-a bastante agradável até uns 80% do livro, mas tenho que admitir que me decepcionei um pouco com o final. Talvez porque o número de brechas e pontas soltas fosse muito grande, talvez pela falta de explicações de aspectos essenciais que poderiam ser explicados logo nesse primeiro volume com a adição de um pouco mais de páginas. Faltou, aqui, aquele lance do livro que se fecha em si mesmo ao mesmo tempo em que dá brecha para continuação. “Terra Morta: Fuga” dá muitas brechas para continuação, mas não é fechado. Talvez isso possa ser uma alternativa que instigue os leitores a comprar os próximos volumes (ok, não vou dizer que não fiquei curioso pelo volume dois), mas acho que se algumas explicações essenciais fossem dadas e não ficassem para o próximo livro, eu ficaria ainda mais satisfeito como leitor.
Então é isso: o livro entretém. Se essa for sua principal preocupação – sentar durante umas horas e ler um pouco sobre sangue, tripas, pulos e grunhidos – esse é o livro certo. Agora aguardemos o segundo volume que, pelo que sei, está em fase de produção. Boa leitura!

Posted on sábado, março 17, 2012 by Lucas Rocha

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14 de dezembro de 2010

Houve um tempo em que correntes eram uma coisa normal na internet. Volta e meia, você abria a sua caixa de spam ou seu scrapbook no Orkut e lá estava a malfadada mensagem: amores eternos, amizades duradouras, salvação da alma, salvação da humanidade, fim do aquecimento global, maldições, ad infinitum. Era praticamente impossível não ser pego por uma dessas correntes que te obrigava a passar a mensagem para um número determinado de pessoas na esperança de que todos os seus desejos fossem realizados.

Valendo-se dessas mensagens um tanto quanto incômodas e subestimadas por quem as recebe, Estevão Ribeiro compõe o seu novo thriller, “A Corrente” (editora Draco, 184 págs). Na história, somos apresentados a Roberto, um hacker que, após receber (mais) uma corrente na sua caixa de spam, decide gastar o seu tempo livre escolhendo para quem repassá-la. O que ele sequer desconfia é que essa não é uma corrente normal. Nela, uma menina de dezesseis anos chamada Bruna diz que consequências muito graves aguardam Roberto e qualquer um que se negar a enviar a corrente para sete pessoas. Ele obviamente não leva a sério (quem levaria?), mas acha legal passar a corrente só para perturbar amigos, conhecidos, desafetos e até mesmo uma ex-namorada.

Logo, somos apresentados à vida de cada uma dessas sete pessoas para as quais Roberto passa a mensagem. Uma grande jogada do autor foi ter conseguido dar a profundidade necessária para cada um dos personagens que aparece na narrativa, mesmo que não gaste muito tempo com isso. Somos apresentados a um dançarino narcisista, uma blogueira descendente de orientais que se empolga com cada novo comentário em seu blog, um entusiasta em música que turbina o seu carro com o melhor equipamento de som da cidade, a atendente de uma locadora cheia de sonhos não realizados, enfim, toda uma gama de personagens e sensações que, mesmo sendo tão diferentes, conseguem ser encaixados sem perder a sua riqueza ou sua relevância necessária.

O objetivo do livro é divertir, e nisso ele cumpre muito bem o seu papel. Aos amantes de filmes gore cheios de tripas e vísceras voando câmera afora e sujando a lente com respingos de sangue, o livro é uma ótima pedida. Fraturas expostas, carbonizações e objetos perfurantes são apenas alguns dos apetrechos utilizados por Estevão para a composição de suas cenas de morte ao melhor estilo ‘Premonição’ (e sim, eu adoro esse filme – o primeiro).

Uma coisa, porém, não me agradou muito na narrativa: o seu estilo, narrado em terceira pessoa do presente, em alguns momentos me pareceu um pouco frio demais e não conseguiu me envolver, principalmente nas cenas em que Roberto é o centro das atenções. Parece mais uma descrição subsequente de fatos, sem explorar as sensações do personagem. No entanto, isso não prejudica o livro como um todo: essa frieza às vezes é positiva, dando um clima de solidão e aquela sensação de frio na espinha, principalmente nas cenas em que Bruna aparece e naquelas em que os personagens secundários encontram o seu destino trágico nas mãos dela. É aquele esquema de prejudicar certas partes para o benefício de outras.

Antes de fechar essa resenha, tenho que destacar um parágrafo especial para a construção da personagem Bruna. Alternadamente cálida e assustadora, o fantasma da menininha negra rodeada por pombos consegue o que dificilmente se vê por aí nos livros de terror: assustar. As cenas em que Estevão descreve a frieza nos olhos dela ou todo o ódio que a menina nutre dentro de si dão uma maior profundidade a ela. Para mim, Bruna é a melhor personagem do livro (e sim, eu tenho carinho e empatia por vilões, ainda mais após descobrir as suas motivações e objetivos).

“A Corrente” é isso: um romance que você lê rápido, se empolga com as cenas de morte e se intriga até descobrir o que raios todos os acontecimentos têm a ver com uma menina que mata qualquer um que se negue a perpetuar seu terror cibernético. Uma história que te prende até as últimas páginas e revelações, daquelas que você não vai conseguir largar pela metade. E então, o que você está esperando?

PS1) Você nunca olhará para sua caixa de spam com os mesmos olhos;
PS2) Você nunca olhará para os pombos na rua com os mesmos olhos;
PS3) Vai logo ler esse livro!

Até a próxima!

Posted on terça-feira, dezembro 14, 2010 by Lucas Rocha

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8 de setembro de 2010

Seja bem-vindo ao Neon Azul. Qual é o seu desejo?

“Neon Azul” (Editora Draco, 166 p.) é o mais novo lançamento do autor carioca Eric Novello. Lançamento bastante aguardado por mim, devo confessar. Em primeiro lugar, por se tratar de um romance de fantasia urbana, gênero ainda tão pouco difundido nos livros de literatura nacional; em segundo, pelo tema envolvente e pela atmosfera sedutora que o livro, desde antes do seu lançamento, criou.

Deixe-me explicar: Neon Azul é o nome de um clube, boate, inferninho ou bar (escolha um dos substantivos ou use-os todos de uma vez, não faz tanta diferença assim) localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro. Um lugar onde os desejos mais íntimos e particulares afloram de forma perturbadora, no convívio com notas de piano e drinks luminescentes. Entre as figuras frequentadoras do bar, encontramos um homem que nunca dorme, um advogado com um boneco de estimação dentro de uma garrafa e um mendigo com um passado bastante intrigante. E como figura principal temos ‘O Homem’, criatura incógnita de chapéu panamá e anéis nos dedos, sempre com uma proposta irrecusável para os seus clientes.

É nesse clima de fumaça de cigarros, reflexos de espelhos e néon azulado que somos apresentados aos dez contos do livro. Neles, os personagens e as histórias se cruzam de forma não-cronológica, deixando o leitor confortavelmente confuso. O formato fix up torna tudo ainda mais interessante: é um livro sem início ou fim, que pode ser lido em qualquer ordem sem que sua essência seja perdida.

“Neon Azul” não é nem de perto um livro feliz. Os personagens são pessoas que apanharam da vida e estão sem rumo, perdidas por entre lágrimas e solidão. E essa ausência de chão, de ter algum lugar em que se firmar, é assustadoramente real e – acredito – compatível com o que muitas pessoas sentem. O Neon Azul é a fuga da tristeza, a alternativa para aqueles que estão cansados de se sentirem sós, e ‘O Homem’ é o objeto materializador desses anseios e desejos. No entanto, tal qual um agiota, ele sempre cobra juros altíssimos por seus empréstimos de felicidade momentânea.

A fantasia se apresenta de forma muito sutil em “Neon Azul”. Não sabemos se ela de fato existe ou se é mera especulação dos personagens, produto de suas mentes e de seus delírios. Essa sensação suspensa de dúvida, de não saber exatamente o que ou como as coisas acontecem, torna a história mais atraente. O autor não desafia a inteligência do leitor com explicações minuciosas sobre os acontecimentos; prefere, ao invés disso, deixar que cada um tire uma conclusão e uma interpretação própria.

Outra coisa que adorei no livro foram as referências, que vão desde Charles Chaplin e Orson Welles até Massive Attack e Jay Vaquer. Eric sabe colocar as suas influências cinematográficas, musicais e artísticas no lugar certo. Quem não ficou com ‘Só tinha que ser com você’ retumbando na cabeça depois de ler a história de Jéssica? Eu fiquei.

E a Editora Draco, como sempre, dá um show na produção editorial – e eu não vou me cansar de dizer isso. A capa está maravilhosa e a apresentação dos contos também. É quase como se você pudesse ver as luzes em néon se acendendo depois daquela piscadela e daquele barulho da corrente elétrica atravessando os fios.

“Neon Azul” é um livro que não deve ser lido apenas uma vez. É cheio de paixões, amores e desastres e, apesar da solidão e da amargura que os personagens sentem, é daqueles que você não consegue parar de ler até que chegue ao fim.

E aí reside outro grande problema: o livro não tem fim nem começo. Posso, então, dizer que cheguei ao fim?

Posted on quarta-feira, setembro 08, 2010 by Lucas Rocha

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23 de março de 2010


Quando ouvi o nome de Jim Anotsu pela primeira vez, logo pensei: ‘ora, então a editora Draco, dando os primeiros passos no mercado editorial brasileiro, já resolveu apostar em traduções de autores internacionais?’ Feita uma rápida pesquisa, logo descobri que Jim Anotsu, apesar de viver sob as pontes de Londres (correção: pontes de Seattle, como o Jim disse no comentário. Confundi criador e criaturas :P) e cuidar de seu cachorro Humbug, é o pseudônimo de um autor nacional.

Logo fiquei com os dois pés atrás, me perguntando qual era a finalidade de um pseudônimo como aquele: confundir os leitores, fazendo-os pensar que o livro é uma tradução e, com isso, tentar uma jogada de marketing para vender mais exemplares? Ter medo de mostrar o próprio nome, preferindo, ao invés disso, usar um pseudônimo que soasse melhor do que um sobrenome brasileiro comum? Talvez isso, a princípio, tenha me deixado um pouco receoso quanto ao livro em si.

Puro preconceito.

Após o lançamento oficial do livro, descobri que ele estava sendo muito bem recebido pelos leitores, com ótimas resenhas e críticas. Estava pronto para adquirir um exemplar, mas, para a minha surpresa e satisfação – e antes que eu enfiasse as mãos nos meus bolsos furados – fui premiado com um exemplar no sorteio da comunidade do Orkut “Escritores de Fantasia & FC”. Via de regra, devo fazer uma resenha para compensar o ganho do exemplar.

Tudo bem, eu a faria de qualquer forma mesmo.

O livro “Annabel & Sarah” (Editora Draco, 156 páginas) narra a história de duas irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Annabel é uma rock’n’roll girl, com cabelos tingidos de preto, All Star sujo e uma personalidade extremamente sarcástica e irônica; Sarah é a menina que todo o pai pediu a Deus: calma, cálida, bela, extremamente educada e correta. Filhas de pais separados – Sarah morando com a mãe e Annabel com o pai – as duas são surpreendidas quando Sarah é seqüestrada por uma televisão e vai parar em um universo paralelo onde todos devem ser sempre felizes. Agora Annabel precisa unir forças a um lobo detetive e partir em busca da flor Amor-Perfeito, única coisa capaz de salvar Sarah.

A sinopse é, por si só, eletrizante. E o livro faz jus à sinopse: carregado de cenas de ação, ele te leva para os mais absurdos – e criativos – lugares. Sarah, em um mundo onde todos devem ser felizes (o que me lembra, a propósito, um episódio excelente do desenho “Os Padrinhos Mágicos”), comendo tortas de morango que aumentam o ânimo e tendo que lidar com fiscais que denunciam qualquer um que ouse derramar uma lágrima ou apresentar qualquer sinal de tristeza; Annabel, em contrapartida, para em um universo beat e noir, onde animais falam e humanos são mero rebanho para a alimentação. Lá, ela se une ao lobo Op Spade, detetive arisco e mal-encarado que aceita ajudar Annabel por intermédio de uma raposa chamada Dean Chinaski.

Não poderia deixar de comentar sobre as referências do livro: Chinaski, rua Kerouac, Spade, rua Bukowski, nomes de capítulos como “Corra, Sarah! Corra!”, citações a bandas, filmes e séries de TV... tudo casa extremamente bem com a atmosfera do livro. Em momento nenhum as referências parecem forçadas; muito ao contrário! Conseguimos, a partir dessas referências – que devemos pescar ao longo do livro, uma vez que nenhuma delas é completamente explícita – descobrir alguns dos gostos do autor (se do Jim ou do autor por trás do Jim nunca saberei dizer) e suas influências, que não são poucas.

Mas como nem tudo são amores-perfeitos e não se pode ser eternamente feliz, consegui captar algumas falhas ao longo de “Annabel & Sarah”: a principal talvez seja a pouca profundidade das personagens, de um modo geral. Mesmo que os artifícios do interlúdio tenham sido extremamente inteligentes para mostrar um pouco do relacionamento das duas irmãs, senti que outros personagens com histórias muito boas – como Op Spade, Ava Hepburn e Estrela-da-Manhã – poderiam ter as suas histórias um pouco mais aprofundadas. Op Spade me pareceu tão-somente um lobo rabugento e Estrela-da-Manhã uma menina birrenta.

Senti também que rolou um pequeno anticlímax na hora fatídica em que Sarah é sugada pela TV: tudo acontece muito rápida e repentinamente. Se o texto fosse em primeira pessoa, acharia esse artifício interessante, mas, por ser em terceira, acho que o narrador poderia se demorar um pouco mais antes que ela fosse tragada para o mundo de Allegria.

Outra pequena falha se deve à revisão: apesar de poucos, alguns erros – principalmente os de concordância – se tornam chatos com o passar das páginas. Mas não sou o melhor do mundo com gramática, portanto não posso reclamar muito quanto a isso.

No fim, temos a sensação de termos mergulhado em dois mundos completamente diferentes e divertidos, apesar de seus perigos. “Annabel & Sarah” é um romance delicioso, uma completa surpresa por se tratar de um autor nacional e tão jovem com tamanho tato para a fantasia e originalidade para a história.

No mais, coloque o CD “Favourite Worst Nighmare” do Arctic Monkeys para tocar e delicie-se com esse livro belíssimo e sensacional (eu não sei o motivo, mas sempre que vejo essa capa, a música “Teddy Picker” começa a tocar na minha mente. Acho que tenho que me tratar).

Posted on terça-feira, março 23, 2010 by Lucas Rocha

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